Um papo sobre os outros

Estadão

26 de maio de 2009 | 11h09

Nicole Kidman

Nicole Kidman: A atriz foi a estrela de ‘Os Outros’. O filme não tem nada a ver com fofoca, mas a Nicole tem tudo a ver comigo

Como todo grande primata urbano, adoro shopping center. Mas de uns tempos para cá, esse ex-templo voltado para o consumo virou apenas um lugar onde ficam salas de cinema, restaurantes e áreas com atrações infantis – pelo menos para mim.

Lembrei que o shopping é um lugar onde se faz compras na semana passada, quando encontrei umas amigas e descobri que as mulheres adoram se olhar no espelho e arrumar o cabelo quando estão experimentando… sapatos. Não me pergunte qual é a lógica por trás disso. Nunca entenderei como a decisão de comprar ou não um sapato está relacionada ao penteado da consumidora.

Mais tarde, já no restaurante, passei o almoço inteiro praticamente quieto, só ouvindo conversas que poderiam ser tiradas de qualquer episódio de Sex and the City. Como o mundo ficou parecido, não? Como as pessoas falam e desejam as mesmas coisas, não importa em qual grande metrópole do mundo elas vivem…

As pessoas, aliás, de uma maneira geral, conversam apenas sobre dois assuntos: a própria vida e a vida dos outros. Falar sobre a própria vida só é interessante quando a pessoa em questão é extraordinária; na maioria das vezes, o assunto dura pouco e fica restrito a fatos específicos de interesse geral. Agora, quando a conversa é sobre pessoas que não estão lá…

“Lembra daquele fulano da nossa classe? Pois é, acaba de se separar…”

“Sério? E ele tem filhos?”

“Ouvi falar que a mulher foi embora de casa.”

“Não foi esse que viajou para Paris com a secretária?”

Todo mundo sempre tem uma informação adicional sobre o assunto em questão. E daí eu fiquei me perguntando: falar dos outros é fofoca? Ou só é fofoca quando falamos mal dos outros?

O costume faz parte da natureza humana – e não me refiro à brincadeira que fiz aqui outro dia (Mulheres fofocam; homens conversam). Falar sobre amigos em comum humaniza a conversa, traz essas pessoas para a mesa da gente. Às vezes rola uma maldade; confesso que até eu faço isso de vez em quando. Mas quando alguém ‘traz’ um amigo para o papo, geralmente é porque o personagem poderia estar ali, opinando e dividindo o assunto com a galera.

Estou sendo ingênuo? Estou esquecendo as milhares de pessoas que só se lembram dos amigos na hora de criticá-los? No dicionário Aurélio, a fofoca é definida como “difamação, murmuração, maldizer; dizer mal; blasfemar; falar mal de alguém”. Que absurdo. Vou convidar o Aurélio para almoçar e provar que ele está completamente errado.

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