Um escritor cruel

Estadão

19 de julho de 2007 | 16h01

Quando um bom escritor quer ser cruel, sai de baixo. Acabo de ler ‘Homem Lento’, último romance do sul-africano J.M. Coetzee, que ganhou o Nobel de literatura em 2003 e dois Booker Prize (o Nobel britânico). O livro tem uma trama difícil, espinhosa, mas o texto de Coetzee é tão incrivelmente genial que vale a pena chegar ao fim para ver como ele amarra a história.

‘Homem Lento’ narra um episódio na vida de Paul Rayment, um senhor que é atropelado quando andava de bicicleta pela rua. Ele tem que amputar a perna e se recusa a usar uma prótese. Conclusão: tem que viver de muletas, sofrendo com as dificuldades e tudo mais. Ótima diversão para um fim de semana ensolarado, não? O pior é que vale a pena.

Coetzee introduz um elemento interessante, que acaba servindo de ponte entre o escritor, o personagem e o próprio leitor. Ele apresenta mais uma vez a personagem Elizabeth Costello, uma espécie de Mrs. Marple (lembra da detetive de Agatha Chrstie?) que em vez de investigar assassinatos e mistérios torna-se a voz do escritor dentro do livro. Deu para entender? Ela faz o papel de uma escritora que aparece no meio da história, mas a história que ela está escrevendo é… a própria história do livro… enfim, é uma metalinguagem elevada à enésima potência.

Digo que Coetzee é cruel porque ele trata o personagem Paul Rayment com desprezo, frieza. Ele o humilha, não apenas por ter perdido a perna no acidente, mas diante de todas as suas fraquezas como ser humano. Só não dá mais pena do personagem porque a gente sabe (será?) que ele é de papel.

Criticaram Coetzee porque ele veio para a FLIP e não deu entrevistas nem falou com ninguém. Mas eu não estou nem aí: não quero ser amigo dele, seus livros já me bastam.

OBS. Uma outra obra que trata de metalinguagem de maneira interessante é ‘Mais Estranho que a Ficção’, filme que acaba de sair em DVD com Will Ferrell e Emma Thompson. Ela é uma escritora, ele é o personagem… alugue o filme, vale a pena. A direção é do excelente Marc Foster (‘Em Busca da Terra do Nunca’), que também estará atrás das câmeras no próximo filme de James Bond.

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