Meirelles abre os olhos do mundo

Estadão

15 de setembro de 2008 | 11h26

Fernando Meirelles e Julianne Moore

A imprensa já falou muito (e com razão, claro) de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, então vou me ater ao que mais me chamou a atenção: a direção de Fernando Meirelles.

Quem já leu algum livro de José Saramago pode imaginar a dificuldade que é tirar um roteiro dali – um filme, então, nem se fala. Saramago escreve em um ritmo diferente de tudo, extremamente prolixo, um jorro de idéias concatenadas e sentimentos profundos expressos em frases imensas separadas por dezenas de vírgulas. (Estou resumindo seu estilo, é claro que é muito mais complexo que isso.)

Daí chega Meirelles e consegue colocar tudo isso na tela, numa adaptação intensa e emocionante.

Na minha opinião, o conceito de cegueira branca descrito no livro é até mais assustador que qualquer escuridão, pois pelo menos estamos acostumados a ela quando chega a noite. Esse mar de leite, esse nada em estado puro, essa tela sem tintas ganhou tanto destaque que foi transformada com maestria em personagem no filme de Meirelles, em grande parte graças também ao talento do fotógrafo César Charlone, seu parceiro de longa data.

O que me chamou a atenção na direção é que o filme é muito mais ambicioso e original do que os padrões dos últimos lançamentos de Hollywood. As pinceladas de branco que cobrem a tela de cinema nos levam ao núcleo do sofrimento dos personagens, assim como as tomadas propositalmente fora de foco ou com cortes de câmera estranhos; uma hora a cabeça do personagem está fora da tela, outra hora é a metade de seu corpo que não conseguimos ver. Meirelles quis que o próprio espectador estivesse vivendo aquela cegueira, ou, pelo menos, imaginando a aflição que ela provocaria. É como se alguém que está prestes a ficar cego estivesse segurando uma câmera e filmando um documentário, tamanha é a crueza das cenas e a falta de música (há uma trilha do grupo Uakti, mas é quase feita só de sons e melodias hipnóticas).

Fernando Meirelles prova com ‘Ensaio’ que é um dos melhores diretores do mundo, e não digo isso porque sou brasileiro (até porque elogiar o cara só porque ele é brasileiro é uma grande bobagem). ‘Cidade de Deus’ já havia mostrado que ele era incrível; ‘O Jardineiro Fiel’ apresentou ao mundo um diretor competente e capaz de segurar um filme com astros internacionais no coração da África; com ‘Ensaio’ ele mostra que não é apenas um bom diretor, mas um ‘auteur’, um artista que imprime sua marca pessoal por onde passa. E com muito talento.

Destaque também para as atuações de Gael Garcia Bernal, Danny Glover e Alice Braga, mas principalmente para as de Julianne Moore e Mark Ruffalo. Ele é o homem comum, bom, um representante do povo que é facilmente manipulado pelo poder vigente no momento. Mas ela é que é a grande personagem do filme. Sua personagem sem nome (como todos os personagens, aliás, o que deve ter dificultado ainda mais a elaboração do roteiro) deve levar Julianna Moore a ser indicada ao Oscar – a não ser que a Academia seja cega. Ela é a mulher do médico que lidera (metaforicamente) a humanidade rumo à… humanidade. A construção psicológica do seu personagem permite uma abordagem totalmente não-maniqueísta da vida, o que prova que nós, grandes primatas, fazemos o que temos que fazer para sobreviver – e inevitavelmente temos que deixar a moral em segundo plano.

Durante o filme, imaginei o que teria acontecido se Stanley Kubrick tivesse feito essa adaptação. Teria sido diferente da visão de Meirelles, com certeza, mas a filmografia do gênio americano estava repleta de exemplos interessantes da intrínseca maldade do homem, o que também é o caso em ‘Ensaio’. Em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo na última sexta-feira, o diretor Walter Salles fez uma referência a ‘Laranja Mecânica’ no texto sobre o filme de Meirelles – o que eu achei muito pertinente. Mas só para correção, o filme de Kubrick é de 1971, e não de 1961, como Waltinho disse.

‘Ensaio’ não recebeu críticas muito boas até agora, pelo menos não nas grandes publicações internacionais como a Variety. Acho que esss críticos realmente estão cegos. O filme de Meirelles não é um filme agradável de ser visto, mas é um filme necessário para o mundo. É necessário para discutir a condição humana, já que a cegueira é uma metáfora que cai ainda melhor hoje do que na época em que o livro de Saramago foi lançado, em 1995. Será que estamos cada vez mais cegos? Ou será que somos os mesmos cegos de sempre? O filme, assim como o livro, discute isso de maneira inteligente e original. ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ emociona porque mostra o que somos na essência, quando todas as luzes se apagam – ou, nesse caso, quando se acendem.

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