Um caso perdido e várias vidas encontradas

Estadão

02 de abril de 2008 | 10h31

carlhiaasen

Sem voltar ao assunto férias (mas já voltando), é claro que aproveitei uma boa parte do tempo livre para colocar a leitura em dia – até porque a pilha de livros sobre meu criado-mudo estava começando a ficar perigosa. Minha mulher chegou a me acusar de ‘criar um ambiente perigoso para uma criança pequena’, o que eu achei exagero, mas concordei.

Um dos livros que devorei rapidamente foi o delicioso ‘Caso Perdido’, de Carl Hiaasen. O ex-repórter investigativo nascido na Flórida já escreveu vários best-sellers, como ‘O Pio da Coruja’ e… (pasmem) ‘Strip-tease’. O filme com a Demi Moore é uma bomba (ótimo apenas para ver sem som, se é que você me entende), mas quem leu o livro antes de ele ir para as telas garantiu que é bem legal.

É a mesma coisa, aliás, com ‘Caso Perdido’: um livro divertido, daqueles para ler na praia em vez de folhear as fotos sorridentes da Caras ou da Contigo, que não vão te levar a lugar nenhum. ‘Caso Perdido’ conta a história de um repórter investigativo nascido na Flórida (que coincidência, não?) que está ‘encostado’ no jornal em que trabalha e acaba transferido para a página de obituários (aqueles textos que saem quando alguém importante morre). Aí ele descobre que um cantor de rock morreu em circustâncias esquisitas, decide ir atrás do caso… O livro lembra a história de Kurt Cobain/Courtney Love, com algumas pitadas de humor e jornalismo investigativo (totalmente irreal). Volto a dizer: não é literatura de alto nível no sentido ‘stricto sensu’, mas um texto gostoso para deixar o vento do outono folhear as páginas, de uma vez só. Nesse estilo, Hiassen é um craque.

Falando sobre repórteres que acabam enterrados nos obituários dos jornais (desculpe o trocadilho, não resisti), não posso esquecer outro lançamento que devorei nas férias, este sim, do mais alto nível ‘jornaliterário’: ‘O Livro das Vidas – Os Obituários do New York Times’. Mais um título da coleção Jornalismo Literário, da Cia. das Letras (indispensável para quem aprender a escrever bem), o livro é uma compilação de textos sobre mortos tão interessantes quanto desconhecidos.

Meus obituários favoritos:

O engenheiro mecânico que virou o estilista oficial… dos astronautas;

O cronista Joseph Mitchell, que escrevia sobre personagens anônimos (e mostrava que todas as pessoas podem ser interessantes, depende de quem conta a história);

O publicitário Meyer Michael Greenberg, que distribuía luvas para os pobres na porta do metrô, em dias de frio;

Stanley Adelman, mecânico que consertava as máquinas de escrever de nomes como Philip Roth e David Mamet;

Barney Josephson, dono do Cafe Society, o primeiro bar a permitir a entrada de negros (não apenas no palco, como era antes dele)
Elizabet Bottomley Noyce, que fez caridade com a fortunda do ex-marido, depois que descobriu que ele tinha uma amante;

… e por aí vai. É um livro interessantíssimo, igualmente fácil de ler, e definitivamente não apenas para jornalistas. Ao contrário do que parece, o livro não é pesado nem fala só sobre a morte, mas principalmente sobre a vida de pessoas incríveis que muito pouca gente teve o prazer de conhecer.

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