The Killers: Show matador, apesar da lama

Estadão

23 de novembro de 2009 | 13h53

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‘When You Were Young’: Não é estranho um cara escrever uma música chamada ‘Quando Éramos Jovens’ aos 22 anos? Brandon Flowers é talentoso, mas esquisito

Antes de falar sobre o ótimo show do The Killers, um pequeno comentário sobre o Chiqueiro do Jockey, quer dizer, a Chácara do Jockey.

Já reclamei aqui que uma cidade como São Paulo, que já entrou definitivamente para o circuito das turnês internacionais, merece lugares de show melhores do que temos hoje. O Chiqueiro do Jockey, quer dizer, a Chácara do Jockey não é um lugar tão ruim. Tudo bem, é longe e o trânsito infernal dificulta o acesso. Mas o som normalmente é muito bom, o local é bonito e lembra aqueles tradicionais festivais do verão britânico. A Pista Premium permite uma excelente visualização dos shows; os banheiros são em número suficiente. As áreas de alimentação são OK, assim como os bares e serviços essenciais (postos médicos, etc). O que estraga tudo mesmo é a chuva.

Chuva não é culpa da organização; o que é culpa, sim, é tratar um público que pagou de R$ 200 a R$ 350 como porcos. Por que os shows em estádios têm uma cobertura sobre o gramado? Porque os estádios obrigam a produção a fazer isso, justamente para não destruir o campo. No Chiqueiro do Jockey, quer dizer, na Chácara do Jockey não tinha cobertura nenhuma sobre a grama. Ou seja, a grama molhada e mal cortada vira um lamaçal nojento. Repito: isso não é maneira de tratar quem paga R$ 350 por um ingresso. Não adianta dizer que o preço do ingresso no Brasil é barato e a cobertura inviabilizaria a produção. Não é barato e os shows em estádio têm isso. E R$ 350 é um ingresso caro em qualquer lugar do mundo. É um absurdo, a produção TEM que colocar placas de borracha ou tapumes de madeira sobre a área onde fica a maior parte do público. Se eles colocam esse material em estádios, por que não no Jockey? Só porque o Jockey não obriga a fazer isso? Mas isso deveria estar no custo da produção desde o início, assim como banheiros químicos, ambulância… Custa mais para a produção? Custa. Mas tem que ser feito. Não é possível ver essa falta de respeito com quem paga tão caro para ver um show. Não estamos mais na época de Woodstock, caramba.

Agora ao The Killers: Eles são sensacionais. Vi a banda ao vivo pela primeira em 2006, em um show no Madison Square Garden, em Nova York. Foi muito bom ter visto uma banda decolando, no exato momento em que ela se transformava em uma das maiores do mundo. Não é segredo para ninguém que a turma do vocalista Brandon Flowers sempre teve como objetivo ser o ‘novo U2’. Digamos que eles são bons, mas ainda têm que comer muito fish and chips para isso. Mas os caras são bons, talvez seja a melhor banda ‘nova’ do mundo (eles se formaram em 2002 em Las Vegas. E eu chamo de nova toda banda formada depois do ano 2000).

A característica mais legal de um show do The Killers é que eles têm muitas músicas famosas, apesar da curta carreira. E esses hits funcionam perfeitamente ao vivo porque tem refrão, letras fáceis, tocam direto nas rádios e têm melodias perfeitas para serem cantadas por multidões. O show começou com ‘Human’, depois veio ‘Somebody Told Me’, ‘Read My Mind’, ‘Bones’… são todas muito legais. A presença de banda no palco também é boa. O estilo do guitarrista David Keuning é uma mistura dos dedilhados de Johnny Marr (The Smiths) e os solos de Brian May (Queen); o baixista Mark Stoermer é tímido como a maioria dos bons baixistas); e Ronnie Vannuci é criativo, tem bons arranjos de batera e ainda mantém o tempo como um relógio.

Queria dedicar um espaço para a grande estrela da banda, Brandon Flowers. É um cara bastante especial, talentoso e bom cantor. Sua voz é excelente e ele também sabe como agitar uma plateia ao vivo: pede para cantar junto, arrisca expressões divertidas em português (‘essa noite está molhada’), dança pelo palco. Mas tenho que admitir que ele não me convence totalmente. Não sei se é o fato de ele ser (ou ter sido) Mórmon e, portanto, ter um estilo de vida oposto ao que se espera de um rockstar de verdade. Algo nele tem um caráter meio, sei lá, planejado demais, muito de acordo com o script. É preciso agitar a plateia? Ele agita. Só como exemplo, vamos compará-lo com vocalistas lendários como Bono ou Mick Jagger. Eles também são carismáticos, também sabem lidar com a plateia. Mas tem uma emoção real que não consigo sentir em Brandon, algo como a diferença entre um tomate orgânico e um transgênico. Bono e Mick cantam com o coração na garganta, enquanto Brandon canta com o coração… no peito, mesmo. Brandon é tão perfeito que parece nem suar no palco. Não quero ser injusto – eu gosto do Brandon. Só acho que ele é muito esquemático. Parodiando o sucesso do The Killers, talvez Bono e Mick sejam ‘Human’, enquanto Brandon é ‘Dancer’.

Foi legal ver também que as músicas de ‘Day & Age’, disco novo da banda, funcionam bem ao vivo. Analisando friamente, The Killers estaria em decadência criativa: O melhor disco é ‘Hot Fuss’, de 2004. O segundo melhor é ‘Sam’s Town’, de 2006. E o terceiro melhor é ‘Day & Age’, de 2008. Ou seja, eles foram piorando. Mas esse show foi mais legal que o do Madison Square Garden, em 2006, porque as músicas de ‘Day & Age’ (‘Human’, ‘Spaceman’, ‘Joyride’) funcionam bem melhor ao vivo do que no disco. Acho que elas são meio insossas no disco, talvez fruto da produção perfeitinha-demais de Stuart Price (Madonna, Seal): o produtor é bom, mas tirou a alma rock and roll do The Killers: em ‘Day & Age’ eles soam como o Depeche Mode, se o Depeche Mode precisasse de uma transfusão de sangue.

Espero que eu não tenha passado a impressão de que não gosto da banda. Eu sou fã do The Killers e estava na primeira fila (com chuva e tudo) cantando todas as músicas. Esquecendo a parte da lama, o show foi, com o perdão do trocadilho… matador.

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