Só não me chame de senhor

Estadão

22 de abril de 2008 | 10h11

Jack

Um dos meus programas favoritos é entrar numa livraria e ficar vagando entre as prateleiras, cumprimentando livros lidos e me apresentando a livros que eu adoraria ler. Não preciso da ajuda de ninguém, até porque sei exatamente o que procuro e o que gostaria de procurar. Pois era exatamente isso que eu fazia na última terça-feira, quando um simpático rapaz de uns vinte e poucos anos se aproximou e disse:

“O senhor procura alguma coisa em especial?”

Já me chamaram de senhor antes, mas era em razão de um desses rituais de hierarquia que a gente está tão acostumado que nem liga. Acho que essa foi a primeira vez que alguém me chamou de senhor no sentido literal da palavra, a expressão tradicional de respeito por alguém mais velho ou – mal sabe ele – mais respeitável.

Não respondi a primeira coisa que me veio à cabeça, até porque teria sido extremamente deselegante com o garoto. Afinal, ele estava ali para ajudar. Talvez até tivesse sido instruído a chamar de senhor qualquer cliente com mais de quinze anos, sei lá.

Ou talvez não. Talvez ele tenha realmente me olhado e pensado em me chamar de senhor em sinal de respeito, porque eu era claramente mais velho que ele. Não sei. Só sei que foi uma sensação estranha, bem estranha.

Tenho 37 anos e uma hora isso ia acontecer. Se não fosse na última terça-feira, seria daqui a seis meses. Não importa. Pela lógica da vida, quem não morre envelhece. E estou envelhecendo, assim como você. E assim como aquele recém-nascido que acaba de chegar ao mundo. É duro reconhecer, mas isso é, ao mesmo tempo, o terror e a beleza da vida. Se cada madrugada é um dia a menos, cada manhã é um dia a mais.

Ainda não me considero um velho. Se tudo der certo, não estou nem na metade da minha vida. Quero me tornar um cara como Jack Nicholson (foto: Anthony Harvey/Reuters), que ainda deve dar um banho em muito garoto metido por aí.

No entanto, é claro que, seguindo a lógica das coisas, o atendente da livraria tem muito mais tempo pela frente do que eu. Tomara que ele aproveite, assim como tenho aproveitado. Temos uma única vida, mas isso também significa que temos uma vida única. Cada um pode realizar todos os seus sonhos, cada um pode ser o que quiser, inclusive um atendente de livraria. Só não me chame de senhor na próxima vez.

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