Aerosmith: O segredo do sucesso é a dupla Tyler-Perry

Estadão

31 de maio de 2010 | 13h31

‘Dream on’ ao vivo numa apresentação no Japão em 2002: A melhor música do show em São Paulo, uma das melhores da história do rock

Se alguém tinha dúvidas de que o Aerosmith é maior banda da história do rock norte-americano, elas viraram fumaça de gelo seco no fim de semana. Os shows da banda de Boston no Brasil sempre foram muito bons, então não foi nenhuma novidade vê-los detonar o palco do Parque Antártica no último sábado.

Todos os músicos do Aerosmith são competentes, mas é bastante óbvio constatar que os fãs só compram ingressos há 40 anos (sim, a banda tem 40 anos) graças ao vocalista Steven Tyler e ao guitarrista Joe Perry. A dupla é uma versão americana (ou seja, profissional ao extremo) da estrutura artístico-musical que marcou as bandas inglesas nos anos 1970: um vocalista sexy-andrógino-de-calças-justíssimas e um guitarrista bad-boy-com-atitude-guitar-hero.

O exemplo que vem primeiro à cabeça é o de Mick Jagger e Keith Richards, com uma característica impressionantemente semelhante e outra bem diferente. A semelhança: o quesito ‘tamanho da boca do vocalista’, compartilhada coincidentemente (ou não) por Jagger e Tyler. A característica que tem mais ver com a postura no palco do que com a musicalidade é o talento dos guitarristas: enquanto Joe Perry é sensacional, Richards sempre foi um músico apenas mediano. De maneira geral, inclusive em termos de estilo e peso, a dupla Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, é mais parecida.

No mundo do rock & roll, não se tem 40 anos de estrada à toa. Steven Tyler teve o público nas mãos desde ‘Eat the Rich’, que abriu o show. Aliás, é impressionante ver o número de clássicos que o Aerosmith tem e que a gente nem se lembra direito até o primeiro acorde da música explodir nos amplificadores vintage de Joe Perry.

O som de Joe Perry é outro dos destaques do show: nunca vi tantas guitarras incríveis no mesmo lugar desde que visitei uma loja de instrumentos raros em Los Angeles. Steven Tyler pode ser ‘a boca’, mas Joe Perry é que é ‘o cara’.

O show do Aerosmith não tem nada efeitos sonoros, não tem loops eletrônicos, ou outra modernidade. É um rock and roll puro, cantado com a garganta. As guitarras têm som de guitarra; o vocalista pede para o público cantar. E as letras são perfeitas para quem quer tirar as ansiedades de dentro do peito e jogá-las ao vento em um estádio com 38 mil pessoas. Como resistir a Dream on, dream on… Dream until your dreams come true… (Continue sonhando, continue sonhando… até que seu sonho vire realidade). O rock tem uma mensagem tão profunda que muitas vezes o reduzimos a algo simplista. Não é.

Voltando ao assunto, não é a boca (nem as luzes loiras nos cabelos, nem o Botox no rosto inteiro) do Steven Tyler o que mais chama a atenção no show do Aerosmith: é o repertório. Os caras desfilam uma bela mistura de clássicos do hard rock dos anos 1970 e 1980 com canções recentes que ficaram famosas entre os mais jovens graças a uma série de videoclipes muito legais. Foi uma estratégia marqueteira tão eficiente para ganhar as novas gerações que só poderia ter sido colocada em prática por uma banda americana de rock. A maior delas.

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