Samba, suor e carnaval

Estadão

12 Fevereiro 2010 | 19h51

Camila Silva Vai Vai
Camila Silva, rainha da bateria da Vai Vai. No caso dela, seria mais aproriado dizer ‘Vem Vem’

Foto de Felipe Rau/AE

Todo ano, quando chega perto do carnaval, me preparo para escrever uma coluna sobre o assunto. Acho carnaval uma das coisas mais chatas do mundo, mas, após tantos anos falando mal, aprendi que essa é uma guerra mais ou menos como as guerras americanas no Oriente Médio: não importa o que se faça, será impossível vencê-la.

Há outra razão que me faz abandonar as críticas: já usei todos os argumentos possíveis e imagináveis contra o carnaval e não tenho mais nada a acrescentar. Já falei mal das letras dos sambas-enredo (até hoje não entendo por que todas têm que falar sobre orixás e forças da natureza); já enchi o saco dos carnavalescos que insistem em dar nomes sérios para os quesitos de julgamento das escolas (‘nota 10 em Evolução’, ah, tenha dó); já critiquei até os velhinhos de terno no final do desfile, que eu acho deprimente (sei que a velha guarda representa a tradição da escola, blá, blá, blá, mas após tantos anos de dedicação, os coitados ganham como prêmio… desfilar de terno e gravata com uma temperatura de 40 graus).

Para que ninguém diga que Felipe Machado ‘bom sujeito não é’, confesso que ouvi um samba outro dia e não achei tão mal. Era do Paulinho da Viola. Engraçado, não tinha nada a ver com carnaval ou com o som que rola nessas rodinhas formadas por caras cheios de dentes vestindo ternos caramelo.

A letra era meio ingênua, mas com uma certa malícia poética, bonita (por favor não confunda com letras de duplo sentido de grupos como, sei lá, É o Tchan). O instrumental, ao contrário daquele paticumbum acelerado das escolas de samba, era sofisticado e cheio de harmonias complexas e interessantes. A voz do Paulinho da Viola também tem uma tranquilidade de porto seguro, um tom que foge do desespero dos puxadores de carnaval, que parece que têm que correr na avenida para tirar o pai da forca. Enfim, achei legal.

Um amigo carioca diz que não gosto de carnaval porque nunca saí num bloco como o Suvaco do Cristo (o nome não podia ser mais nojento), que reúne uma galera ‘irada’, como dizem por lá. Verdade, nunca saí. Mas já sei que não vou gostar porque não me agrada a ideia de andar pelo Rio de Janeiro em meio a um monte de gente suada, com os dedinhos para cima e cantando marchinhas que já eram bobas na época da minha bisavó.

Mas, como já disse, não vou mais criticar o carnaval. Se você gosta, vá em frente. Cante. Dance. Deixe vir à tona o espírito do grande primata que existe dentro de você. O Brasil ama o carnaval, não importa o que eu diga. E como estou de boa vontade, prometo pelo menos ouvir um disco do Paulinho da Viola nos próximos dias. Já é uma evolução nota 10, não?