Rush: Os sacerdotes sagrados do rock and roll

Estadão

15 de outubro de 2010 | 16h13

Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart: Devoção dos fãs e respeito dos músicos

Inevitável comparar dois shows de rock que aconteceram no mesmo estádio e na mesma semana. Mas é estranho compará-los e constatar como dois eventos tão parecidos podem ter sido tão diferentes, mesmo dando desconto aos críticos que dirão que, no fundo, rock é tudo igual.

Pois foi assim com os shows do Bon Jovi, na quarta-feira, e do Rush, na sexta. A começar pela plateia: enquanto a banda americana liderada por Jon Bon Jovi arrastou milhares de mulheres ávidas por devorar, quer dizer, assistir ao show do galã e sua turma, os canadenses do Rush contaram com um público praticamente inteiro masculino.

Não é apenas porque os caras do Rush são feios, embora isso também deva ter contribuído. Tudo bem, eles podem não ser lindos. Mas o som que sai de seus instrumentos é simplesmente maravilhoso.

O show começou ‘apenas’ com ‘Spirit of the Radio’, o que não deixa de ser uma ironia, uma vez que as rádios nunca tocaram Rush. Depois veio a excelente ‘Time Stand Still’, que mostra todo o suíngue do trio canadense. Se você não sabe o que vem a ser isso, dificilmente vai concordar comigo ou se empolgar com esse relato. Apenas acredite: muito bom.

Não, não é um som para todos (as), como o Bon Jovi. É música complexa, como, aliás, é toda a discografia do Rush. Dizem que é música para músicos, e isso deve explicar a quantidade de colegas roqueiros que encontrei por lá: de Silvio Golfetti, guitarrista da banda de thrash metal Korzus, aos irmãos Busic, do ícone do hard rock brasileiro Dr. Sin. Todo mundo com mãozinhas para o alto – inclusive eu.

Sim, Rush é uma banda para músicos, mesmo quando esses músicos não sabem tocar nenhum instrumento. Estranho? Se você é um músico que não sabe tocar nenhum instrumento, sabe do que estou falando. Músicos podem ser músicos apenas na cabeça, respeito que nasce da admiração por outros músicos. Pois o fã do Rush é assim. Até porque, se for falar de músicos de verdade, nem os melhores do mundo têm muita facilidade para tocar uma música do Rush, seja na guitarra, no baixo ou, muito menos, na bateria.

O show teve vários hits, como Closer to the Heart e Limelight, mas o grande sucesso mesmo veio com a sequência de canções do disco Moving Pictures, de longe o melhor da banda. Tom Sawyer mostrou que, por trás daqueles músicos impressionantes, há um trio de amigos curtindo a vida de uma banda de rock com um senso de humor bastante peculiar. O vídeo com macacos dublando a música, exibido no telão, foi divertidíssimo, apesar de soar como ‘inside joke’ O próprio palco é uma ‘inside joke’, já que não consegui entender até agora o que máquinas de lavar tem a ver com rock and roll. Mas ouvir um estádio inteiro cantando o riff de música instrumental de quase sete minutos (YYZ) é uma experiência, no mínimo… interessante.

Mas chega de puxar o saco, vamos ser críticos: o show teve várias partes chatas. Passagens instrumentais longas demais ou ‘Lado B’ demais só funcionam para quem é fã-hardcore. Esse tipo de repertório pode até funcionar quando você faz uma longa temporada em uma única cidade, com shows diferentes toda noite, etc. Mas para bandas que tocam em estádios… o ideal seria escolher apenas as músicas mais conhecidas, mesmo.

Quem é o Rush? O baixista e vocalista Geddy Lee tem uma voz esquisita, um timbre que só agrada a… fãs do Rush. É uma voz do tipo ‘ame ou odeie’. Tudo bem, eu a amo, mas tem horas que me incomoda bastante. Geddy Lee canta em um registro muito, muito alto. O Ministério da Saúde adverte que horas seguidas desse timbre podem provocar danos aos ouvidos. Ainda mais porque os timbres são tão altos, que sua voz falhou algumas vezes. Mas Geddy, enfim, é um dos maiores baixistas da história do rock. E não é só isso, já que ele canta, toca teclado e baixo… com os pés, por meio de pedais. Tudo ao mesmo tempo. Assoviar e chupar bala simultaneamente é coisa para principantes.

O guitarrista Alex Lifeson é um dos músicos mais subestimados (para dizer pouco) da história do rock. Ele é muito, muito bom, mas como está na banda de dois monstros, acaba parecendo que é apenas um instrumentista razoável. Mas não é: basta imaginar que o cara influenciou o The Edge, para dizer o mínimo.

Neil Peart é, provavelmente, o maior baterista da história do rock. Não, não esqueci de John Bonham, do Led Zeppelin, ou de Ian Paice, do Deep Purple. Mas Peart é melhor, indiscutivelmente. Talvez não em ‘feeling’ ou em ‘pegada’, mas no resto ele leva de longe. Neil Peart é o baterista mais preciso, mais criativo e mais especial que já pisou em um palco de rock desde Bill Halley e seus Cometas. Dificilmente eu agüentaria cinco minutos de solo de bateria a essa altura da minha vida: Neil Peart solou durante dez minutos e eu achei muito pouco. Ele é simplesmente hipnotizante. Suas baquetas cortam o ar como bisturis de alta precisão numa mesa de cirurgia; o som que sai das peles de suas peças produz notas musicais que não existem no mundo real. Sua bateria não é apenas um instrumento de percussão, como as baterias dos outros bateristas. O instrumento de Neil Peart respira, é uma entidade orgânica. Não é à toa que Neil Peart, no excelente documentário ‘Beyond the Lighted Stage’, é apelidado de ‘Drum Guru’. Bateria, para ele, não é música: é religião.

No documentário citado acima há outras informações bem interessantes, vale a pena ver. Passou nos cinemas e fez bastante sucesso, chegando a ganhar em maio deste ano o prêmio do público no Tribeca Film Festival, em Nova York. Os produtores canadenses Scot McFadyen e Sam Dunn também dirigiram ‘Flight 666’, do Iron Maiden, e ‘Metal: A Headbanger’s Journey’. Ou seja, os caras são documentaristas da pesada.

O filme conta, por exemplo, que Geddy e Alex são amigos de infância e decidiram seguir o caminho do rock desde a adolescência. Há cenas hilárias da época, com os dois discutindo com os pais sobre suas posições. Os moleques já tinham personalidade desde os velhos tempos. Também fiquei sabendo que é Neil Peart quem escreve todas as letras, textos complexos que misturam ficção científica e mitos gregos. É por isso – e por outras muitas coisas – que o show do Rush é um mundo à parte. Um mundo frequentado por muitos nerds, diga-se de passagem (inclusive eu).

Quer a prova? Então só imaginar a seguinte cena: no ápice do show do Morumbi, 35 mil pessoas cantaram o seguinte refrão:

“Nós somos os sacerdotes do Templo de Syrinx
Nossos grandes computadores ocupam as paredes sagradas”

Sério, dá para imaginar? Sacerdotes? Templo? Syrinx? Sim, isso faz parte do mundo do Rush. Tolkien, de ‘Senhor dos Aneis’, perde de lavada. É ou não é meio nerd? Totalmente. É ou não é música para músicos? 100%. Mas o Rush não quer ser unanimidade, não está em seu DNA. A banda se contenta em dialogar com o seu público. Levando em conta que o Rush está na estrada há 42 anos, eles devem saber o que estão fazendo.

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