Rock & Roll Futebol Clube

Estadão

08 Fevereiro 2010 | 12h46

Steve Harris
Na última vez que esteve em São Paulo, Steve Harris, baixista do Iron Maiden, montou um time para jogar bola. Joguei contra ele, e posso dizer que o cara é o mestre do Rock & Roll F.C. Steve está agachado, com faixa na cabeça; eu sou o segundo, em pé, da dir. para a esq.

Passei o último fim de semana enfurnado em estádios de futebol. No sábado, vi o show do Metallica no Morumbi; no domingo, vi o show do Corinthians contra o Palmeiras no Pacaembu. Foi cansativo? Foi. Mas me diverti muito. E foi bastante interessante descobrir que há mais semelhanças entre roqueiros e torcedores do que imagina a nossa vã filosofia.

Para começar, são todos fanáticos, apaixonados. E levam suas paixões a sério, como religiões em que o palco e o campo são os altares.

Fazia um bom tempo que eu não ia a jogos no estádio, e confesso que tinha até esquecido alguns rituais. Na hora do gol que deu a vitória ao Corinthians, um cara ao meu lado, um desconhecido suado e sem camisa… me abraçou. Em circunstâncias normais de temperatura e pressão, eu teria empurrado o mano arquibancada abaixo dizendo que aquilo era coisa de boiola. Mas o mais inacreditável é que eu correspondi ao abraço, o que significa que eu devia estar tomado, sei lá, por algum espírito alvinegro. O cara me abraçou como irmão, e acho que naquele momento éramos mesmo irmãos, unidos por um laço familiar artificial e sensacional chamado Corinthians.

Não vi nenhum roqueiro se abraçando no show do Metallica, mas a catarse (adoro essa palavra) provocada pelo som foi semelhante à da vitória: mãos para o alto e gritos de guerra disfarçados de letras de músicas. Corintianos e ‘metálicos’ idolatram seus deuses, não importa se estão tocando guitarra ou correndo atrás de uma bola.

As músicas da torcida não têm a força das canções do Metallica, mas são bem mais divertidas. Minha favorita é: Aqui tem um bando de louco /Louco por ti Corinthians /Aqueles que acham que é pouco /Eu vivo por ti Corinthians /Eu canto até ficar rouco /Eu canto para te empurrar / Vamo, vamo, meu Timão /Não para de lutar.

Na minha opinião, a letra é um primor digno do Nobel de Literatura (preste atenção à ‘liberdade criativa’ na utilização da palavra vamo). Agora sério: há uma submissão ao amor linda, pura. Talvez eu estivesse meio sentimentalóide no dia do jogo, mas fiquei com vontade de chorar ao ver aquele povo todo cantando ‘Eu vivo por ti, Corinthians’. Como explicar essa paixão? Como explicar a obsessão por algo tão abstrato, o distintivo de um time?

A paixão, aliás, é outro ponto de união entre torcidas e roqueiros. São impressionantes as tatuagens que alguns torcedores/fãs radicais têm de seus símbolos adorados, muitos deles cobrindo boa parte dos seus corpos. Dizem que futebol e rock & roll são só formas que inventamos para sublimar os problemas do dia a dia. Pode ser. Mas que são experiências maravilhosas, ah, isso são.

FM Arquibancada
Aqui tem um louco por ti, Corinthians