Richard Price: Um mestre da 'Vida Vadia' de Nova York

Estadão

05 de janeiro de 2010 | 19h08

Richard Price/Ralph Gibson
Richard Price: O colega Dennis Lehane acha que ele é o melhor escritor de diálogos dos EUA. Quem sou eu para discutir?

Ao contrário da matemática, a literatura está longe de ser uma ciência exata. É por isso que, para gostar de um livro, pouco nos importa se o autor ganhou o Prêmio Nobel ou se ele foi considerado o melhor escritor do mundo pelo melhor crítico do mundo. O que nos toca, no sentido emocional – e até na influência sobre nossa capacidade de abstração do texto em si – é a linguagem. Gostamos de livros onde há uma identificação entre a narrativa do autor e a nossa forma de pensamento. É uma ligação muito próxima entre os olhos que correm as letras e o cérebro que as escreveu.

Escrever é ritmo, já disse alguém. E ler também, por consequência. Por isso acho tão importante encontrar autores com os quais me identifico, não apenas em termos de temática, mas principalmente em relação ao ritmo da narrativa.

Após esse início de texto chamado no jornalismo de ‘nariz de cera’ (‘enrolação de linguiça’ em português mais claro), pretendo falar sobre um dos livros que acabo de ler no feriado de início de ano: ‘Vida Vadia’, de Richard Price.

O tamanho assustou um pouco, já que é um tijolo de 500 páginas. Mas fiquei empolgado e o encarei porque li que a trama se passava em Manhattan, mais especificamente no Lower East Side, região onde fiquei hospedado recentemente durante minhas férias. O livro se passa numa época um pouco distante, levemente indefinida, provavelmente nos anos 80, quando a região ainda era um pouco detonada e o crime corria solto. Hoje Nova York é tão segura que mesmo nos locais citados no livro é difícil imaginar que havia uma degradação espalhada como uma metástase em um paciente terminal. ‘Vida Vadia’ é uma coleção de personagens ferrados, todos meio sem saída, presos a um dia a dia sem futuro e a um passado que seria melhor esquecer.

Voltando ao início do texto e à importância do ritmo no literatura, confesso que logo de cara achei a narrativa de Richard Price um pouco caricata e sem fluidez para um romance policial. Depois fui perceber que a culpa não era dele, mas minha, por ter lido a edição em português. Nada contra o excelente trabalho feito por Paulo Henriques Britto ou pela edição caprichada da editora Cia. Das Letras. O problema é da língua mesmo. Como traduzir what’s up, brother? sem cair no ridículo ou no, como se diz em português… fake? A expressão em português se tornaria algo como ‘e aí, brother?’ ou ‘como estão as coisas, irmãozinho?’, ou ‘fala, mano?’… Ou seja, tão difícil traduzir ‘Vida Vadia’ para o português como seria traduzir, sei lá, ‘O Invasor’ ou ‘Cidade de Deus’ para o inglês. É possível, mas não é crível, com o perdão da rima.

Apesar desse problema inicial, depois de assimilado o ritmo, o livro engata uma segunda e fica bastante interessante. Violento, sujo, intenso, cortante são alguns dos adjetivos que eu poderia aplicar a ele. Os diálogos são sensacionais, como aponta o também famoso escritor Dennis Lehane na orelha: ‘Richard Price é o maior escritor de diálogos, vivo ou morto, que este país jamais produziu. Maluco, profano, hilário e trágico, às vezes tudo isso numa única frase’.

Meio exagero, mas tudo bem… afinal, quem sou eu para discutir com o autor de ‘Sobre Meninos e Lobos’? O livro de Price, inclusive, também deve ir parar rapidinho nas telas: esse professor de Yale que cresceu no Bronx já escreveu ‘Irmãos de Sangue’, dirigido por Spike Lee em 1995, e séries como ‘The Wire’ (HBO). Antes, em 1986, havia escrito o roteiro de ‘A Cor do Dinheiro’, indicado ao Oscar pelo filme com Paul Newman e Tom Cruise, dirigido por Martin Scorsese.

É bem provável, portanto, que ‘Vida Vadia’ esteja em breve nas telas. A trama é simples, poderia ocupar bem menos papel. Mas Price gosta de passear por Nova York, ir e voltar aos lugares, como fazem os policiais de seus romances (e alguns criminosos também, já que ‘todo criminoso volta ao local do crime’). O livro é baseado na descrição de algumas histórias simultâneas (eu poderia usar a palavra ‘cenas’ com a mesma propriedade), todas decorrentes do assassinato de Ike Marcus. O jovem barman saía de um bar acompanhado por outros dois amigos quando foi morto após reagir a um assalto. Entram em cena a complicada família da vítima, os dois amigos que sobrevivem, dezenas de imigrantes ilegais, donos de bares ‘risca-faca’, bandidos de várias etnias (os adolescentes negros com medalhões no peito são tão reais que você acredita que eles vão brotar das páginas como hologramas para cantar um rap na sua cara), e, claro, os policiais (honestos e desonestos). ‘Vida Vadia’ é um livro sobre uma investigação policial; detalhado, vivo, elétrico, perigoso.

Apesar do livro ser longo, quando as letras The End surgiram ao final confesso que fiquei com aquele gostinho de ‘quero mais’. Se não for transformado logo em filme, vou ter que esperar ansioso pelo próximo livro de Richard Price. Será que vem aí ‘Vida Vadia 2’?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.