Retrospectiva do Carnaval: três amigos, 27 chopps

Estadão

06 Fevereiro 2008 | 10h56

Sabrina e Adriane

“Oi, Dri, que saudades!”
“Pois é, Sa, eu também. A gente é tão amiga, não?”

(foto de José Luis da Conceição/AE)

Ufa. Terminou a maratona de Carnaval.

Como vocês sabem, eu estive no Sambódromo (a trabalho, claro) nos dois dias dos desfiles principais do Carnaval paulistano. Na terça-feira à noite, saí com dois amigos para tomar uma cerveja e acabamos conversando sobre o assunto, obviamente. Eles não estiveram no Anhembi, portanto os trechos a seguir são detalhes que contei a eles:

1. Na entrada dos camarotes, belas garotas distribuíam camisinhas. Elas vestiam camisetas azuis com o seguinte slogan: ‘Tudo bem? Antes, durante e depois?’ Ninguém entendia nada. Só depois fui perceber que a empresa farmacêutica não podia fazer propaganda direta do V… (remédio contra impotência), então fizeram essa ação promocional, digamos, ‘subliminar’ (e bota subliminar nisso). Detalhe: eu vi gente pegando cinco, seis, dez camisinhas. Ô gente otimista! Onde será que eles vão depois do desfile? Ou será que havia um lugar secreto no Sambódromo e ninguém me contou?

2. Contei para meus amigos que vi carros alegóricos com garotas tão jovens que eu pensei que eram da Ala da Pedofilia. Isso é outra coisa que eu odeio sobre Carnaval: como os pais deixam essas crianças serem tão sensuais tão jovens? Nenhum político jamais vai levantar essa bandeira. Mas deveria.

3. Grande parte das pessoas que saem nas escolas não têm a menor noção do que é samba. Apenas compram a fantasia e tiram fotos para depois mostrar em tediosos almoços de domingo em família. Apesar de viverem desse dinheiro, as escolas deviam escolher melhor seus convidados: tinha gente ali que não tinha ritmo nem para andar a pé, quanto mais para sambar.

4. Os destaques pagam uma bela grana para sair em cima dos carros alegóricos, mas a cara deles durante o desfile é de puro desespero. Não conseguem nem sambar, porque ficam presos num suporte e nem tiram o pé do chão. Ficam sorrindo, mas tenho certeza que estão pensando ‘tomara que eu não despenque daqui de cima’. Até porque os carros são bem toscos, ficam tremendo o tempo inteiro. Deve dar um belo… pavor.

5. É incrível como o Carnaval é feito por/para exibicionistas. Quem está na avenida acha que você tem obrigação de aplaudir quando eles passam, só porque pagaram R$ 300 por uma fantasia. Não há nada mais exibicionista do que sair no Carnaval. ‘Olhem como sou maravilhoso e deslumbrante’, parecem querer dizer. As pessoas querem ser vistas e aplaudidas por uma multidão de estranhos, vai saber por quê. Quinze minutos de fama, talvez.

6. Nas primeiras vezes que o samba-enredo toca, é engraçado ver como ninguém sabe a letra, no máximo a primeira estrófe ou o início do refrão. Depois de ouvi-los 382 vezes (média de vezes que os sambas tocam durante o desfile), aí sim, o pessoal aprende. Até porque as letras são todas iguais e feitas para decorar facilmente. Mas não há nada mais engraçado que os temas. Não preciso nem inventar, são piadas prontas:

Gaviões: ‘Nas asas dos Gaviões, rumo ao portal dos sertões – Santana de Parnaíba: Berço dos Bandeiras’ (Isso é o tema ou é a letra inteira?)

Acadêmicos do Tucuruvi: ‘Hummm…É tempo de sorvete, do oriente ao ocidente alimento refrescante e nutritivo’ (Um carrinho-alegórico de sorvete)

Unidos de Vila Maria: ‘Irashai-Masae, milênio de cultura e sabedoria no centenário da imigração japonesa’ (tudo bem, esse passa)

Águia de Ouro: ‘A taça da felicidade, uma viagem pelos sentidos às delícias do sorvete’ (Ué, com tanto orixá por aí eles também vão falar de sorvete? Sorte deles que não existe plágio no Carnaval – e não poderia existir, já que é tudo igual mesmo)

Tom Maior: ‘Glória paulista – São Paulo na vanguarda da economia brasileira’ (Deve ter sido patrocinado pelo governo do Estado)

Rosas de Ouro: ‘Rosaessência – O eterno aroma’ (Eles borrifavam perfume durante o desfile – misturado com o cheiro de suor da galera, imagina como ficava)

Nenê de Vila Matilde: ‘Um vôo da águia como se viu! Também somos folclore do nosso Brasil – 110 anos aprendendo com Câmara Cascudo’ (Tentaram colocar 230 temas no mesmo samba-enredo?)

Camisa Verde e Branco: ‘Da pré-história ao DNA: a história do cabelo eu vou contar’ (Faltaram integrantes heavy metal, eu poderia ter indicado alguns cabeludos)

Mancha Verde: ‘És imortal… Ariano Suassuna, sua vida, sua obra, patrimônio cultural’ (Sei que é politicamente incorreto dizer isso, mas acho a obra de Ariano Suassuna muito chata)

X-9 Paulistana: ‘O povo da terra está abusando. O aquecimento global vem aí. A vida boa sustentável pede passagem’ (É enredo ou roteiro de filme do Al Gore?)

Pérola Negra: ‘A onça vai beber água. Jaguariúna: qualidade de vida e desenvolvimento nos trilhos do tempo’ (Não entendi)

Vai-Vai: ‘Acorda Brasil’ (Educação? Legal. Parabéns, mereceu ganhar)

Mocidade Alegre: ‘Bem-vindo a São Paulo, sabe por quê? Porque São Paulo é tudo de bom’ (Quem criou esse tema de enredo tão profundo? Algum BBB?)

Império da Casa Verde: ‘Sambando e cantando e seguindo a canção. Vem, vamos embora para a festa da MPB’ (Meio fora de época, não?)

7. Por que os organizadores do Carnaval não fazem como na São Paulo Fashion Week? Podia ter um Carnaval ‘Outono-Inverno’ e outro ‘Primavera-Verão’… Não, acho que não é uma boa idéia. Uma vez por ano já está bom demais. E isso não ia dar certo em Salvador: eles iam emendar o ano inteiro (como se já não emendassem).

9. Daqui a alguns anos, prometo compor um samba-enredo e um desfile inspirado no meu maior ídolo, o diretor Stanley Kubrick. Em uma ala, teríamos um monte de gente vestida como a gangue de druggies do Alex, de ‘Laranja Mecânica’; em outra, várias crianças de velotrol, como o garoto de ‘O Iluminado’; em outra ala, passistas com as máscaras venezianas de ‘De Olhos Bem Fechados’. Na bateria, claro, os macacos tocando com ossos para homenagear ‘2001: Uma Odisséia no Espaço’.

10. Assisti a boa parte do desfile do camarote da Prefeitura que, aliás, era o melhor do Sambódromo de SP. O da Brahma era bom, mas estava muito lotado e até as pessoas desconhecidas achavam que eram… alguém. Enfim… já reparou como Carnaval tem sempre aquele folião solitário? Aquele cara que sai correndo de um lado para o outro, de olhos meio fechados, mexendo com todo mundo e usando como desculpa a folia de Carnaval… na verdade, acho que era só mais um bêbado.

11. A moda da customização das camisetas VIP chegou à área da limpeza do Sambódromo. Vi um gari de uniforme laranja com as manguinhas cortadinhas. Uma gra-ci-nha.

Ufa! Prometo ficar um ano sem falar de Carnaval. Para quem gosta, desculpe pelas brincadeiras. Para quem não gosta, como eu… feliz ano novo!