Relacionamentos sem destino

Estadão

01 de junho de 2009 | 12h17

Easy Rider
Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson: O importante é cair na estrada

Sábado, seis da manhã. Lá fora está um frio dos diabos. Em algum lugar da cidade, um homem pula da cama sem pensar duas vezes e pega o casaco de couro. Ele desce até a garagem, sobe na moto e vai se encontrar com um grupo de amigos. Juntos, pegam a estrada até Campos do Jordão.

O vento no rosto o faz se sentir vivo, o caminho é lindo. Chegando a Campos, o grupo estaciona e toma um café. Meia hora depois, as motos voltam à estrada. Algumas horas depois, estão em São Paulo.

Para algumas pessoas, esses caras são parte de um grupo de loucos. Como assim, viajar duas, três horas de moto até Campos apenas para tomar um cafezinho? Apesar de não fazer parte desse grupo, eu respondo: o interessante para eles não é chegar a algum lugar, mas curtir a viagem até lá.

Apesar dessa historinha estar longe de ser uma fábula, ela também tem um significado escondido. Uma metáfora, podemos dizer. Há homens que gostam do caminho, outros gostam do destino. Da mesma maneira que há homens que gostam de ser solteiros e homens que gostam de ser casados.

Solteiros convictos têm um pouco dessa turma que sobe na moto apenas pelo prazer de andar de moto. Eles não pensam em chegar a algum lugar, no caso, a uma família tradicional. Outros pensam apenas no destino: mulher, filhos, sogra – o pacote completo. E antes de você, mulher, criticar o comportamento do primeiro tipo de homem, saiba que também existe um monte de mulheres assim por aí.

Apesar de a sociedade geralmente criticar quem tem a solteirice como estilo de vida, acho que ninguém tem o direito de julgar o outro. É comum a gente achar que os solteiros são pessoas ‘erradas’, porque não tem o desejo de formar uma família. Discordo. Em primeiro lugar, porque não se pode julgar ninguém. Em segundo, porque quem gosta de ser solteiro gosta mais do caminho até o relacionamento do que do relacionamento em si. Como a turma de motoqueiros que gosta mais do trajeto do que do destino, o solteiro gosta da sedução. Depois que a conquista é concretizada, o interesse diminui. Quando se chega ao destino, é hora de começar outra viagem.

Como diz a filosofia tibetana, ‘cada um, cada um’ (a filosofia tibetana diz isso? Duvido). Como diz outro clichê, a vida é muito curta, e é uma só. O importante é ser honesto e deixar a situação clara desde o início.

Um solteiro convicto ao extremo não seria o par perfeito para uma mulher que sonha em ter doze filhos, mas isso é um assunto entre eles. Nunca se esqueça de que toda moto tem uma garupa. E quando a gente gosta de alguém, qualquer viagem é uma delícia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: