Radiohead: Muito mais que um show de rock

Estadão

23 de março de 2009 | 11h53

Thiago Queiroz/AE

Embora eu tenha feito isso milhares de vezes, confesso que até hoje acho difícil descrever um show para quem não esteve lá. Posso falar sobre as músicas, posso mostrar uma foto do palco e dos integrantes. Mas a mágica de um show não pode ser contada em palavras, nem mesmo com um vídeo de alta definição extremamente fiel ao que aconteceu no evento. Uma banda boa de palco transcende o comum, o mortal, e cria uma relação única entre o que acontece no palco e o que bate no coração da platéia. São momentos intensos. E que não voltam.

O Radiohead apresentou um show ontem em São Paulo que vai ficar na memória. O show foi excelente começando pelo lugar escolhido, a Chácara do Jóquei. Apesar de longe pra burro e com poucos acessos viários, o local contribuiu com um clima de festival europeu bucólico e gramado. A garoa fina provocou um pouco de lama, mas nada que incomodasse demais. Banheiros lotados, filas para a cerveja… nada que não tenhamos visto antes. Mas acredite: não prejudicou.

O festival Just a Fest começou com Los Hermanos, e tenho que confessar que achei o show legal. Não conheço muito a banda, nem sou daqueles que se impressionam com os papos-barba (uma variação dos papos-cabeça) dos integrantes. Mas é impressionante como o público gosta deles, como sabe todas as letras de todas as canções. Me lembrou um pouco a relação messiânica que os fãs tinham com o Legião Urbana, embora os Los Hermanos estejam longe do que foi o Legião. Mas isso é muito legal de ver. E eles têm, sim, músicas muito boas. O que me incomoda é o fato de ser um som muito linear, parecido em todas as músicas. Falta um pouco de pegada no som, acho que eles deviam ter ouvido um pouco mais de heavy metal quando eram adolescentes. Sinto falta do grito, da raiva, da emoção de quem está cantando letras sobre… emoção. Acho os vocais meio para dentro, para falar a verdade. Mas admito que eles têm muito talento, é uma pena que a banda não exista mais. Eles deveriam voltar, seria interessante ver o que poderiam fazer quando os egos dos integrantes conseguissem se entender. Os estudantes das faculdades de ciências sociais em todo o mundo torcem por isso.

O Kraftwerk foi o intervalo para buscar cerveja com trilha sonora de luxo. ‘Ensanduíchados’ no meio de duas bandas totalmente emotivas, os alemães-robôs ficaram como peixes fora d’água. O som estava legal e o visual era uma desfile de obras de arte construtivistas e inspiradas em Piet Mondrian. Conceitualmente, o Kratwerk sempre foi muito à frente de todo mundo, mas sinceramente não era um tipo de som para um festival de rock. Seria mais interessante ter convidado alguma outra banda inglesa que começa a despontar, alguém que estivesse com gás para queimar. A presença de palco dos quatro integrantes do Kraftwerk nem pode ser chamada de presença de palco. Afinal, não sei se eram humanos ou robôs que dançavam timidamente na frente de seus teclados/computadores.

Ai, o Radiohead. Que galera esquisita, não? Contrariando o próprio nome da banda, eles não tocam na rádio. Eles não lançam clipes caríssimos. O vocalista está longe de ser um galã. Eles moram em cidades pequenas e não tem a menor vontade de viver o estilo de vida ‘rockstar milionário’. Para que, então, ter uma das maiores bandas de rock do planeta? Porque eles querem se expressar artisticamente. É duro imaginar que ainda existe gente assim, mas é verdade. O interesse no Radiohead é estritamente musical, artístico. Por isso suas canções conquistam corações e mentes em todo o mundo: não são os refrões (nem há tantos refrões assim, para falar a verdade), não são as melodias fáceis (não há melodias fáceis). Se o Kratfwerk é Mondrian, o Radiohead é Picasso. E em alguns momentos, são as cores expressionistas e abstratas de Jackson Pollock, jogadas sobre a tela caoticamente como a existência humana.

Um show do Radiohead também não tem nada a ver com um show do U2 ou da Madonna, por exemplo. Esses artistas estão mais para um shopping center, enquanto o Radiohead é uma gigantesca loja artesanal familiar. Embora o palco do Radiohead seja tão impressionante quanto o do U2 ou Madonna, há uma clara diferença conceitual e estética entre eles. Bono e Madonna vivem de estampar seus rostos em telões gigantescos. Thom Yorke e cia. não tem a menor vontade de se verem como deuses – os telões são divididos em cinco e cada um mostra apenas um detalhe de cada integrante da banda. O que mais chama a atenção no cenário são tubos de um material que parece plástico ou vidro, onde são feitas projeções psicodélicas e bastante interessantes.

O repertório do show foi baseado no disco ‘In Rainbows’, que é simplesmente maravilhoso. Mas tocaram antigas também, como ‘Fake Plastic Trees’ e ‘Creep’. O público foi hipnotizado durante 2h20 – e isso não é fácil de fazer ao mesmo tempo com 30 mil pessoas.

Olha só que incrível: o show respeitou os horários! Cheguei em casa cedo, milagrosamente. E daí fui dormir com imagens que não saiam da minha cabeça: Thom Yorke dançando de um jeito esquisitão; duas meninas que estavam do meu lado cantando a letra de ‘Nude’ de olhos fechados; a ‘chuva’ de luz que ‘caía’ no palco durante as músicas mais rápidas do show; os ritmos complexos e hipnotizantes de ‘Paranoid Android’.

Eu finalmente adormeci e sonhei com alguma coisa que não importa. Quando abri os olhos de manhã, lembrei novamente do show e pensei ‘será que foi real, será que foi tudo aquilo mesmo?’ Aí eu vi a credencial em cima da mesa e tive certeza de que era tudo verdade.

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