Quando a culpada é a vítima

Estadão

14 de novembro de 2009 | 16h46

Paulo Liebert/AE
Geisy Arruda: Na minha longínqua época de faculdade, a gente gostava quando uma garota ia de vestido curto

Sei que ninguém aguenta mais ouvir falar de Geisy, mas você também sabe que se eu não escrevesse sobre ela hoje não escreveria nunca mais. Como já sabemos que Andy Warhol estava certo, o futuro acaba de chegar para a estudante da Uniban: é bom ela aproveitar seus 15 minutos de fama.

Conheci Geisy pessoalmente, ela esteve no estúdio da TV Estadão para uma entrevista. Me pareceu uma pessoa bastante simples. Mora em Diadema, estuda Turismo porque acredita que a profissão vai proporcionar uma vida de viagens e aventuras. Não é linda, mas chama a atenção: é alta, tem olhos claros, corpão. Pareceu sincera quando disse que se sentiu humilhada, que pensou em se matar. Vai saber.

Não estou aqui para julgá-la. Pensando friamente, pode até ser que ela tenha se dado bem com o episódio. Ela deve participar de algum reality show, posar para alguma revista masculina… ou os dois. Mas e daí? Quando os 15 minutos acabarem, quem se lembrará de Geisy Arruda?
No Brasil é tão comum a vítima se dar mal que nem achamos isso tão estranho. Infelizmente, nós, brasileiros, já perdemos há muito tempo a referência do que é Justiça. Pois a garota que correu risco de ser linchada é quem foi considerada culpada, até por pessoas mais instruídas, ‘civilizadas’.

‘Ela provocou’, justificam, exatamente a mesma desculpa usada por todos os estupradores do planeta. Os alunos acharam que Geisy foi vulgar? Reclamem com a diretoria. Conversem com ela. Virem o rosto quando ela passar. Mas não: os castos selvagens que ameaçaram agredi-la são santos e puros, a comissão que a expulsou e depois voltou atrás também. Seria boa ideia apedrejá-la no pátio da escola: o professor de história poderia aproveitar o evento em uma aula sobre cultura medieval.

Geisy se parece com Geni, a famosa personagem de Chico Buarque naquela música que falava também de um certo Zeppelin. E Uniban pode facilmente virar UniTaleban. Não, não fui eu que criei isso: o apelido genial está em toda a internet. Há tempos não vejo um trocadilho tão perfeito.

Fundamentalismo e preconceito não combinam com o que se ensina numa universidade, ou pelo menos, não deveriam combinar. A multidão se esconde com a máscara do anonimato, e aí fico imaginando como tudo começou: alguém grita um comentário agressivo, o outro ri e apoia; quando menos se espera, as vozes isoladas tomam a proporção de um coral fascista. Um aluno sozinho não teria coragem de xingar a colega cara a cara, mas todo fraco vira herói quando sua identidade se dilui na multidão sem rosto. Como não é possível identificar o indivíduo, perdoa-se a covardia das massas. Pelo jeito, personalidade não está no currículo dessa turma.

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