Placebo: Eu não troco um bom show de rock por nada

Estadão

19 de abril de 2010 | 11h56

Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Forrest: sim, são três caras

Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Forrest: sim, são três caras

Mais um fim de semana intenso em São Paulo, com várias opções culturais interessantes… e outras também interessantes, mas não tão culturais assim. Várias opções de baladas, para falar um português claro. No Via Funchal tocou o Social Distortion, show que levaria às lágrimas alguns velhos punks brasileiros – isso, claro, se punks tivessem lágrimas. Agora, se você passou perto do Anhembi no sábado à noite, gostaria de avisar que aquilo que você viu não era um congresso de médicos e enfermeiras: era o pessoal do Skol Sensation, evento de música eletrônica em que o público vai vestido de branco.

Fui a outro show, Placebo, no Credicard Hall. O Placebo é uma banda inglesa formada em 1994, mas que só começou a chamar minha atenção após o lançamento do último disco, ‘Battle for the Sun’. Ouvi tanto esse disco no último volume do meu carro que estava curioso para descobrir como ele soaria cara a cara.

Foi uma excelente escolha: o Placebo ao vivo é muito mais legal e pesadão que no estúdio. Já disse antes aqui que não há nada melhor do que ver uma banda de rock no auge tocando em um belo palco, com bom equipamento e divulgando o repertório de um bom disco. Foi tudo isso que aconteceu no show do Placebo.

A banda liderada pelo esquisitíssimo guitarrista/vocal Brian Molko abusa das guitarras distorcidas, mas está longe de ser considerada heavy metal. Em primeiro lugar graças ao vocal de Molko, que é daqueles arrastados, únicos, do estilo ‘ame ou odeie’. Confesso que na primeira vez que ouvi eu odiei, mas que aprendi a gostar e hoje acho bem interessante. É um registro médio, quase nasalado, impreciso, mas que cria uma sonoridade bastante original. Bandas com guitarras pesadas e vocais gritados soam de uma maneira; bandas com guitarras pesadas e vozes guturais soam de outra.

O Placebo está no meio do caminho, com um tipo de som ‘andrógino-mucho-macho-sensível’. Não sei se os integrantes da banda são gays (eu apenas suspeito, mas não estou interessado em descobrir), só sei que eles têm uma sexualidade bastante difícil de definir.

Em termos de estilo, imagine se você montasse um power trio com um integrante do Smashing Pumpkins, um do Sisters of Mercy e um dos Smiths: o Placebo é mais ou menos assim. Pena que no show de São Paulo eles não tocaram as versões pesadonas de ‘Big Mouth Strikes Again’ (Smiths), ’20th Century Boy’ (T-Rex) ou ‘I Feel You’ (Depeche Mode). Fica para a próxima.

O Placebo ao vivo, ao contrário do que eu imaginava vendo os clipes, não é apenas um trio. Além de Brian Molko, Stefan Olsdal (baixista/guitarrista) e Steve Forrest (novo na banda e excelente baterista), a banda tem mais dois guitarristas, uma violinista e um tecladista. Ou seja: o som vira uma parede sonora, complementado por bases eletrônicas que adicionam um groove dançante às guitarras. Isso acaba até atenuando a melancolia de algumas das canções, principalmente as antigas, que soam meio deprê. Mas é legal ressaltar que, apesar do visual meio ‘dark’, o Placebo não é uma banda ‘emo’. É um glam rock moderno e visceral. Só para se ter uma ideia de como os caras são respeitados lá fora, o maior fã da banda é ninguém mais ninguém menos que David Bowie. Além de parcerias em músicas e convites para abrir sua turnê, Bowie fez questão de convidar pessoalmente o Placebo para tocar em sua festa de 50 anos, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1997.

Outra coisa que me chamou a atenção no show foi a qualidade do som. O começo do ano foi marcado por muitos shows em estádios, onde o palco enorme e a animação da galera muitas vezes acaba prevalecendo sobre a perfeição do som. Mas em uma casa fechada como o Credicard Hall o Placebo teve o palco e a plateia (cerca de quatro mil pessoas) perfeitos para o seu som: o volume estava bom, os timbres estavam perfeitos, o vocal estava cristalino. E o cenário estava bem bonito, com um telão alternando a exibição de vídeos ‘artísticos’ e imagens filmadas em película (simuladas, claro) da banda no palco.

Tenho certeza de que o show do Social Distortion e a balada Skol Sensation foram muito legais. Mas, em pleno sábado à noite, eu não me arrependo de ter trocado punks e eletrônicos por um belo show de uma banda de rock no auge.

Set List

For What it’s Worth
Ashtray Heart
Battle for the Sun
Soulmates
Speak in Tongues
Follow the Cops Back Home
Every You Every Me
Special Needs
Breathe Underwater
Julien
The Neverending Why
Bright Lights
Devil in the Details
Meds
Song to Say Goodbye
Special K
The Bitter End

Bis

Trigger Happy
Infra-Red
Taste in Men

Veja o clipe de ‘Battle for the Sun’:

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