VIPER 1985: Parece que foi ontem

Estadão

12 de abril de 2010 | 12h57

Pit, eu, André Matos, Yves e Cássio: Tiramos a foto no cemitério para fingir que éramos maus. (Foto:Helô Machado/1986)

Pit, eu, André Matos, Yves e Cássio: Tiramos a foto no cemitério para fingir que éramos maus. (Foto:Helô Machado/1986)

‘Vamos comemorar que o amor existe
Que estamos vivos e temos amigos
Quero deixar alguma coisa para você
Uma canção para você não esquecer’

Pit Passarell

Na última quarta-feira o quadradinho do calendário marcou o dia 8 de abril de 2010. Quando subi ao palco do então lendário teatro Lira Paulistana em 8 de abril de 1985, no primeiro show do Viper, essa data era tão distante que eu não imaginava nem que ela existia. Pois é, estamos aí. Ou melhor, 25 anos depois, estamos aqui.

Confesso que sempre que eu ouvia um velhinho dizer ‘nossa, parece que foi ontem’ eu sorria com o canto esquerdo da boca e olhava com aquela cara de ‘ah, então tá’. Hoje vejo que é exatamente isso que acontece. A memória é uma coisa tão viva, tão orgânica, que dá até medo. Não interessa quantos anos se passaram: lembro do show de 1985 e penso: nossa, parece mesmo que foi ontem.

Outra coisa que me chama a atenção é como nossa memória é seletiva. Lembro de detalhes do camarim do Lira Paulistana (um corredor meio sujo e estreito, com um espelho grande e uns restos de madeira no chão), mas não tenho a menor ideia sobre outros fatos que poderiam ser considerados muito mais importantes. Por quê? Por que minha cabeça escolheu se lembrar de uma coisa e não de outra? Quem decidiu isso? Acho que nem o melhor neurologista do mundo saberia responder.

A banda nasceu no meu antigo prédio, em Higienópolis. Os irmãos Pit e Yves Passarell moravam no oitavo andar, eu morava quatro andares abaixo. Quando tínhamos pouco mais de dez anos, aprendemos a tocar violão e montamos a banda inspirados por Beatles e Queen. Nunca imaginávamos que as brincadeiras no playground do prédio nos levariam aos Estados Unidos, Europa, Japão. Isso era um sonho tão impossível de ser realizado quanto marcar um show no Lira Paulistana.

Mas os sonhos são sonhos apenas enquanto ainda não se realizam. Quando se tornam realidade, abrem espaço para novos sonhos, como se as lacunas de nossos corações e mentes fossem alimentadas por esses desejos conscientes (e inconscientes, às vezes) que nos motivam a acordar pela manhã. Tem algo mais gostoso do que conquistar o que se sonha? Se isso não é felicidade, então não tenho a menor ideia do que é felicidade.

Digamos que a banda não está mais na ativa, mas isso não vem ao caso. O que importa é que 8 de abril é uma data para celebrar. Montamos a banda porque éramos amigos, e continuamos amigos. Cada um seguiu seu caminho, mas estaremos eternamente juntos graças aos discos, às viagens, à memória. Alguns irmãos nascem dos mesmos pais, outros não. Seremos uma banda mesmo quando não existir mais nenhuma banda.

E quem diria que 25 anos passariam tão rápido?