Parabéns à (in)competência paulistana

Felipe Machado

01 de fevereiro de 2011 | 19h14

Alessandra Negrini: A atriz paulistana fez sucesso em ‘As Cariocas’. A foto é de Luciana Prezia

Tudo bem, eu sei que você não aguenta mais ouvir falar sobre o aniversário de São Paulo, que aconteceu há exatamente uma semana. Deixei o assunto passar de propósito, até para poder observá-lo de maneira mais racional. E vejo que temos muito (e pouco) a comemorar nesses 457 anos.

Paulistanos e moradores de SP têm uma relação de amor e ódio com a cidade. É engraçado ver que todo mundo que mora aqui adora falar mal de São Paulo, mas basta um turista abrir a boca… que defendemos a cidade como se ela fosse da nossa família. No fundo, talvez seja isso mesmo: a cidade onde vivemos é um integrante da nossa família.

Difícil dizer isso para quem perdeu tudo com as últimas enchentes. Vá dizer para eles que ‘São Paulo tem excelentes opções na área cultural’: você vai levar na cabeça o que a água não levou na enxurrada.

Confesso, no entanto, que também defendo São Paulo dos críticos. Cariocas adoram falar mal de São Paulo, mas aqui é onde eles geralmente vêm ganhar dinheiro. Ninguém sabe ganhar dinheiro como SP – talvez seja por isso que os restaurantes andam tão caros: as pessoas têm dinheiro para gastar e, de acordo com a lei da oferta e da procura…

Restaurantes, inclusive, são o que a cidade tem de melhor. Mas também há shows, peças de teatro, concertos, lojas. O que é ruim em São Paulo, então? Basicamente tudo que depende de algum nível de governo (aliás, como acontece no Brasil inteiro). Restaurantes só precisam de bons chefs e administradores; shows só precisam de bons artistas e empresários.

Por que será que tudo que depende do governo dá errado? Infraestrutura, saneamento, segurança, transporte, serviços públicos. Absolutamente tudo em que o governo põe a mão, é para estragar. Quem sabe na festa de 1.457 anos de SP eles terão aprendido a trabalhar com a mesma competência que se vê no resto da cidade?

Voltando ao lado bom de São Paulo, ouço gente falar que gosta daqui porque ‘dá para comer uma feijoada às 4 da manhã de segunda-feira’. Sim, é verdade. Mas você já viu alguém fazendo isso? Nem eu.

O que gosto aqui são as coisas simples. Tomar café da manhã na padaria em Higienópolis. Comer sushi na Liberdade. Caminhar pela Paulista e ver os rostos na multidão. Ir a um jogo do Timão no Pacaembu.

A vida de uma cidade não é medida pelos seus pontos fora da curva, mas pelo seu dia a dia. E nas áreas em que o governo não se envolve, vamos muito bem, obrigado. Só não me venha chamar São Paulo de ‘Sampa’: isso é coisa de turista.

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