Para finalizar

Estadão

04 de março de 2008 | 10h34

Encerrando o fim de semana dedicado ao Iron Maiden: um texto de um grande amigo e fã ainda maior da banda. Abaixo, a crítica de Eduardo Collaço, especialista em rock and roll e craque das letrinhas.

UP THE IRONS
por Eduardo Collaço

Definir a grandiosidade do heavy metal em apenas duas palavras? Seria uma missão impossível mas, em caso de vida ou morte, eu arriscaria: Iron Maiden.

Há quase 30 anos eles representam como nenhuma outra banda o poder desse estilo de rock – e estilo de vida – e se tornaram referência para tudo o que veio na música pesada desde então.
Cabelos compridos, tatuagens, letras bestiais, vocal estridente, duelos de guitarras, baixo e bateria alucinados, performances incomparáveis e exageros são bem-vindos… A banda se dá o luxo até de ter uma caveira de estimação como mascote, o lendário Eddie, sempre presente nos shows e nas capas dos discos (sim, eu sou da geração dos LPs), representando as diversas fases da banda, seja como um serial killer ou uma figura épica; como um ser futurista ou como um guerreiro atemporal, entre tantas loucuras.

E, como toda banda clássica que se preze, o Iron Maiden passou por brigas internas, experimentou diferentes formações e teve seus melhores momentos de criação no início da carreira, até o início dos anos 90. Talvez por isso (e para nossa sorte), o grupo retomou sua formação mais bem-sucedida – dando até uma colher de chá ao intruso guitarrista Janick Gers – e resolveu agora brindar sua legião de fãs em todo o mundo com a ‘Somewhere Back in Time World Tour 08’, tocando o que eles produziram de melhor, de ‘Iron Maiden’ (1980) a ‘Fear of the Dark’ (1992).

2 de março de 2008, Parque Antártica, São Paulo. Tudo como eu esperava: cambistas faturando alto, estádio lotado, 99,9% de camisas pretas, cerveja quente, cara e difícil de arrumar, marofinha tradicional, muito moleque doidão, pais e filhos felizes da vida. E, depois de um lindo dia de sol, uma bela chuva, minutos antes do início da apresentação.

Mas e aí… e o show? Maravilhoso, impecável, do começo ao fim. Não consigo nem apontar qual foi o melhor momento. Nem poderia ser diferente. Com um set list que varreu os seus 8 primeiros álbuns – ‘Iron Maiden’, ‘Killers’, ‘The Number of the Beast’, ‘Piece of Mind’, ‘Powerslave’, ‘Somewhere in Time’, ‘7th Son of a 7th Son’ e ‘Fear of the Dark’, a banda fez 2 horas de um som intenso (sim, é claro que poderia ser mais alto; sempre poderá ser mais alto), exibindo as luzes e o visual que ainda hoje fazem história. E com os deuses Dickinson, Harris, Murray, Smith e McBrain tocando ali ao vivo clássicos como ‘Run To The Hills’, ‘Revelations’ e ‘Two Minutes to Midnight’, foi de emocionar e fazer todo mundo berrar em coro, em plena devoção e pura redenção.

Visão crítica: os intervalos longos, os discursos e as promessas de breve retorno, além da nossa eterna dúvida: porque manter nessa tour comemorativa o bom, esforçado – e com cara de bruxa velha – terceiro guitarrista, Janick Gers?

Sou um veterano dos shows, principalmente nos de rock ‘n’ roll e heavy metal. Vi o Iron Maiden quatro vezes ao vivo, e mais uma vez digo que não há público mais fiel que o headbanger. E é uma turma previsível: chegam em bandos, estampam Iron Maiden (claro!!), AC/DC, Led Zeppelin, Metallica e Ozzy nas surradas camisetas, começam a balada ainda fora do estádio e consomem muitos litros de tudo que seja alcoólico, barato e forte. Mas o bacana é ver a galera no final; Os sorrisos estampados nas caras dos sobreviventes (We shall never surrender! / Nós nunca nos renderemos, como diz o discurso de Winston Churchill na introdução do show) já dizem tudo. E ainda explicam porque roqueiros de outras tribos como indies, nu-metals, emos e tudo mais que envolva um pedal distortion devem se render. E admitir que um dia já foram conquistados por esta adorável donzela.

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