Oscar 2010: A consagração de 'Avatar' não veio

Estadão

08 de março de 2010 | 15h58

Kathryn Bigelow, diretora de 'Guerra ao Terror', comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Kathryn Bigelow, diretora de 'Guerra ao Terror', comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Mais uma noite de Oscar, mais uma noite que entra para a história do cinema e da cultura mundial. O grande destaque, na minha opinião, foi o prêmio de Melhor Diretora para Kathryn Bigelow, realmente merecido por ‘Guerra ao Terror’, ainda mais na véspera do Dia da Mulher. Mas confesso que fiquei frustrado pelo pouco caso da Academia com ‘Avatar’, simplesmente por uma única razão: se um filme pudesse ser um personagem, ‘Avatar’ seria o herói que salva a indústria do cinema e fica com a mocinha no final.

Mas vamos ao começo, já que Oscar é sempre uma noite longa e muito especial (o que eu, particularmente, adoro). Tem gente que reclama, ‘ah, mas é uma cerimônia muito chata, muito longa’. Tudo bem, ninguém é obrigado a ver. Se não gosta do Oscar, vai ver o Big Brother. A Globo, aliás, fez uma coisa ridícula ontem: meia-noite, duas horas depois do início da transmissão do Oscar, e a emissora mostrando Big Brother. “Ah, mas dá mais ibope.” Então é melhor vender os direitos de transmissão do Oscar na TV aberta para outra emissora… Impedir quem gosta de ver o Oscar e não tem TV a cabo é sacanagem. Ainda mais para ver Big Brother, um programa que já deu o que tinha que dar. (E não estou falando da apelação sexual desta edição, embora tenha soado assim… bom, deixa pra lá.)

Eu vi na TNT, porque confesso que gosto da transmissão deles. A Chris Nicklas foi excelente e divertida comentando a chegada das estrelas no tapete vermelho, a tradutora é ótima (embora eu ache absurdo não ter a opção de tecla SAP) e os comentários do Rubens Ewald Filho são muito bons por uma simples razão: o cara é uma verdadeira enciclopédia.

Vamos começar a comentar os prêmios: Ator Coadjuvante, para Christoph Waltz, de ‘Bastardos Inglórios’, era uma barbada tão grande que quem fez bolão deve ter ficado empolgado. A atuação desse cara no filme do Tarantino (o melhor dele, aliás, desde Pulp Fiction, já que acho os dois ‘Kill Bill’ meio chatos) é de tirar o chapéu (ou o capacete nazista, no caso). Como é bom ver uma performance desse nível, não? O ator austríaco foi sensacional. Stanley Tucci corria por fora em ‘Um Olhar do Paraíso’, e deve receber um Oscar em breve porque também é um excelente ator.

Uma das melhores piadas da cerimônia foi feita por Steve Martin, que dividiu o palco com Alec Baldwin. Depois de entregar o prêmio a Waltz, que faz o papel de um dos nazistas mais cruéis da história do cinema, Martin virou para ele e disse assim: “Você não queria acabar com os judeus? Então faça a festa”, apontando para a plateia do Oscar, insinuando que a comunidade judaica manda em Hollywood. Eu adorei o formato de dois apresentadores, primeiro porque gosto de Martin e Baldwin e acho que eles funcionaram juntos. E também porque duas pessoas permitem aqueles sketches de três tempos que a TV americana sabe fazer tão bem: um fala uma coisa, o outro levanta a bola, o primeiro finaliza. É simples, mas quando é bem feito (e no Oscar é lógico que seria bem feito, já que há alguns dos melhores roteiristas do mundo) funciona muito bem.

A melhor Atriz Coajuvante foi Mo’Nique, de ‘Preciosa’. Não posso comentar a atuação especificamente, porque infelizmente não consegui ver o filme a tempo. Mas a maneira com que ela foi aplaudida de pé pelos colegas no Kodak Theatre mostra que ela realmente mereceu. Só pelo clipe que o Oscar mostrou do filme já deu para ver que a performance dela era, para dizer o mínimo, explosiva. Penélope Cruz merecia um Oscar pela beleza (não sei o que ela viu no Javier Bardem, embora 11 em cada 10 mulheres digam que ele é lindo, maravilhoso, ‘homem de verdade’, etc. Elas reclamam dos homens metidos a machão… mas o Javier Bardem pode. Vai entender).

Animação: estava na cara que Up ia ganhar, até porque ele concorria até na categoria de Melhor Filme (isso não acontecia desde ‘A Bela e a Fera’ em 1991). E foi merecido mesmo: ‘Up – Altas Aventuras’ é delicado, inteligente, tem uma história linda e divertida. Se alguém ainda tinha dúvida de que animação pode ser tão criativa e importante para o cinema quanto um filme normal, tem que ver ‘Up’. Ou ‘Toy Story’ 3D, que vi há alguns dias com minha filha, e que é tão bom quanto qualquer clássico do cinema. Confesso que não gostei muito de ‘A Princesa e o Sapo’, produção da Disney que também concorria na categoria. Não, não foi pelo fato de ela ser 2D em um mundo cada vez mais 3D. Achei que algumas cenas eram muito escuras (a do pântano, por exemplo) e o filme cansa um pouco (informações baseadas na opinião da minha crítica infantil favorita, Bebel Machado).

Filme estrangeiro foi a categoria que mais me revoltou. Não vi o filme vencedor, o argentino ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (é a segunda vez que os argentinos ganham; eles venceram com ‘A História Oficial’, em 1985; o Brasil fica inscrevendo filmes com ideologias/apologias ultrapassadas e nefastas, é isso o que acontece. Pelo menos temos mais Copas do Mundo que os hermanos).

A verdade é que o vencedor deveria ter sido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Como eu posso dizer isso sem ter visto o vencedor? Simples: Michael Haneke é o melhor diretor da atualidade, seu filme venceu a Palma de Ouro (que entende bem mais de filmes estrangeiros que a Academia) e… sou fã dele, pronto. Veja minha crítica sobre o filme aqui, se quiser saber outras razões.)

Não vou comentar os prêmios puramente técnicos por uma simples razão: ninguém se importa. Quer dizer, eles são muito importantes para os profissionais da indústria, mas para o grande público não interessa se ‘Guerra ao Terror’ ganhou Melhor Edição de Som ou se ‘Star Trek’ ganhou melhor Maquiagem (os dois ganharam). Torci para ‘Star Trek’ perder só para nunca mais eu ter que ver aquelas orelhas do Spok. Nerds e trekkers devem estar felizes.

Efeitos Visuais e Direção de Arte foram para ‘Avatar’, lógico. Roteiro adaptado foi para ‘Preciosa’, baseado no livro ‘Push’ (ô historinha desgraçada, aliás). Roteiro original foi para ‘Guerra ao Terror’, o que achei injusto. Em primeiro lugar porque o roteirista Mark Boal está sendo acusado de basear a história do filme em um personagem real do exército americano que ele conheceu no Iraque, já Boal é um jornalista que cobria a guerra no país. Em segundo porque para um filme de guerra ter o melhor roteiro tem que ser muito diferente, não? E Guerra ao Terror tem um pouco de ‘Falcão Negro em Perigo’, misturado com ‘Platoon’, ‘Full Metal Jacket’ (Nascido para Matar, do Kubrick) e mais meia dúzia de filmes onde o que muda é apenas o cenário/campo da batalha. Melhor seria ter vencido ‘Bastardos Inglórios’, a trama mais criativa do ano. Tarantino reescreveu a história e deu um final mais ‘justo’ (no meu ponto de vista, claro) para Hitler. Vi o filme em Nova York e a plateia levantava no final para bater palmas como se fosse a final de um campeonato. Grande Tarantino.

The Weary Kind, do filme ‘Coração Louco’, ganhou como Melhor Canção. Para mim, é apenas mais uma música country. Não podemos esquecer que essa é uma premiação americana, talvez o único lugar do mundo (fora o interior de São Paulo) onde tem gente que ainda ouve country. Eu estava torcendo para uma das duas canções da animação ‘A Princesa e o Sapo’, Almost There e Down in New Orleans, dois sons bem jazzy, à la big bands, até para marcar um renascimento de New Orleans pós-Katrina. A Melhor Trilha Sonora foi para Up, realmente muito bonita. Ainda bem que ‘Sherlock Holmes’ não ganhou nada, um filme chatíssimo que algumas pessoas gostaram – não sei por quê.

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Vamos agora às duas categorias mais importantes da noite (não para mim, mas para o público): Melhor Atriz e Melhor Ator. Gostei das duas escolhas. A Melhor Atriz foi Sandra Bullock, por seu papel em ‘Um Sonho Possível’. É claro que ela não é melhor que Meryl Streep, que concorria por ‘Julie & Julia’, nem que minha adorada Helen Mirren, de ‘The Last Station’. Mas a Academia adora premiar ‘All-American Girls’ como Sandrinha (olha a intimidade). Eles fizeram isso com Reese Whiterspoon em ‘Johnny & June’, em 2006: é um prêmio para uma estrela corajosa que se aventura em um papel, digamos, mais ‘artístico’. Além disso, Sandrinha estava linda ontem. Ela tem um quê de girl next door que me atrai bastante. Não, eu não sou apaixonado por nenhuma vizinha. Mas é que é um tipo de garota que poderia, realmente, ser sua vizinha, uma pessoa normal e, ao mesmo tempo, muito bonita. Quer dizer, se Sandra Bullock fosse minha vizinha, aí a gente poderia ver se… deixa pra lá.

O Melhor Ator foi Jeff Bridges, que eu acho que deveria ter recebido o Oscar por um papel que fez em 1998: ‘O Grande Lebowski’, até hoje um dos meus filmes favoritos dos irmãos Joel & Ethan Coen. Me falaram que Colin Firth está muito bem em ‘O Direito de Amar’, dirigido pelo estilista Tom Ford, e George Clooney… bem, ele é sempre George Clooney, que concorria por ‘Amor sem Escalas’. Mas Jeff Bridges no papel de um cantor de country decadente ganhou o prêmio que não deram a Mickey Rourke no ano passado, por ‘O Lutador’. Acho que Bridges tem mais amigos que Rourke – é só olhar para os dois que é fácil descobrir por quê.

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Quanto aos prêmios mais importantes, Melhor Filme e Melhor Diretor, fiquei frustrado. Os favoritos eram James Cameron, por ‘Avatar’, e sua ex-mulher, Kathryn Bigelow, por ‘Guerra ao Terror’. Kathryn ganhou os dois. Não gostei: acho que ela deveria ter vencido como direção, até porque uma mulher nunca havia vencido nessa categoria (e nem há tantas mulheres diretoras assim) e porque era um filme difícil, produzido na Jordânia, violento, extremamente masculino. E ela fez um filmão.

Mas o Melhor Filme do ano deveria ter sido ‘Avatar’, simplesmente porque ele está salvando a indústria do cinema. O filme já bateu todos os recordes de bilheteria da história, o que deveria ser importante para Hollywood, já que é uma premiação da própria indústria. Acho que foi inveja de James Cameron, que já tinha ganhado 11 estatuetas por Titanic e quebrado todos os recordes de bilheteria na época. Eu não acho Avatar o melhor filme do ano, na minha opinião teria vencido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Mas acho que é o filme mais importante do ano: se você viu Avatar em um cinema iMax 3D (infelizmente só existe uma sala em São Paulo), você sabe do que eu estou falando. Tudo bem, a história é maniqueísta e a mensagem eco-bom-selvagem já é velha desde a época do Rousseau. Mas é que a experiência ‘Avatar’ representa uma volta ao cinema e à tela grande, ao convívio social e às sensações que não podem ser reproduzidas em casa, nem no melhor dos home theatres. E outra coisa muito importante: a tecnologia é tão avançada que não pode ser copiada facilmente, portanto ninguém quer ver o DVD pirata de ‘Avatar’. E isso força as pessoas a irem ao cinema, como nos velhos tempos. E isso, na minha opinião, pode salvar a indústria do ponto de vista comercial e institucional. ‘Guerra ao Terror’ é um excelente filme, mas apenas isso: um excelente filme. ‘Avatar’ olha para frente, olha para o que pode ser feito e abre milhões de possibilidades. A Academia foi muito convencional e pode ter dado um tiro no pé.

(Se esse tiro no pé fosse em 3D, teria atraído muito mais gente ao cinema.)

Ben Stiller maquiado como personagem de 'Avatar': O filme ganhou apenas três das nove categorias a que foi indicado

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