Oscar 2009: A caminho das Índias

Estadão

25 de fevereiro de 2009 | 12h48

AP Photo/Matt Sayles
Steven Spielberg e Christian Colson, produtor de ‘Quem Quer ser um Milionário?’ Do que será que eles estão rindo?

Não sei qual é a opinião de vocês, mas eu achei muito estranho. Por que ‘Quem Quer Ser um Milionário?’ ganhou tantos Oscars? O filme com clima de ‘Bollywood’ é bonitinho e tudo mais. Mas daí a ser o melhor filme do ano vai uma longa distância. ‘Milionário’ tem a direção claramente inspirada por ‘Cidade de Deus’, os atores têm atuações estereotipadas e caricatas (com exceção das crianças, que são ótimas) e a história é totalmente brega. Se passasse na Sessão da Tarde, eu mudaria de canal. Mas o que eu achei mais esquisito foi o Spielberg ter entregue a estatueta para os produtores do filme. Será que é porque a Índia está na moda?

Acho difícil, até porque a Índia nem está com essa bola toda. Ou não deveria estar, já que é um país com alguns bilionários e a maioria vivendo em favelas. Imagine o Brasil: agora imagine um país dez vezes pior.

Hollywood, no entanto, pode ter outras razões para premiar o ridículo cinema feito na Índia: Spielberg está fechando um acordo bilionário justamente com uma empresa indiana. Não é estranho? Ou alguém acha que ele foi escolhido para entregar o Oscar por coincidência. E, se não foi coincidência, isso quer dizer que ele sabia quem ganharia o prêmio. E, se ele sabia, o Oscar está longe de seguir as premissas éticas a que se propõe.

De acordo com matéria de 6 de outubro do portal do jornal inglês Telegraph, Spielberg rompeu o contrato com sua parceira de longa data, a Paramount Pictures, e assinou com o grupo indiano Reliance ADA. O presidente do Reliance, Anil Ambani, é o sexto homem mais rico do mundo.

O acordo de bilhões de reais prevê que Spielberg produza 35 filmes em cinco anos. Para ter uma idéia do tamanho da encrenca, o gigantesco banco JPMorgan Chase financiou parte do negócio.

Você achava que era só por isso que a Índia estava ‘na moda’ no Oscar? E que tal saber que, dois dias depois de Spielberg anunciar seu acordo, foi a vez da 20th Century Fox assinar com o Vipul Amrutlal Shah, outro grande estúdio indiano? É demais, não?

Depois de todo esse rolo, que tal falar de cinema?

O Oscar 2009 foi muito legal. Quando soube que o Hugh Jackman seria o apresentador, fiquei meio apreensivo. “Pô, aquele mal-humorado do Wolverine nunca vai conseguir substituir nomes como Steve Martin, Jon Stewart, Billy Crystal…’ Mas não é que Jackman foi super bem? É bom lembrar que o Oscar mudou bastante o formato da festa, então o apresentador principal perdeu um pouco do poder/tempo. No tempo que teve, Jackman cantou, dançou, fez boas piadas… enfim, esteve longe de comprometer. E ele, que foi considerado o homem mais sexy do mundo, se mostrou um cara bem-humorado e talentoso.

Outra mudança foi a entrega de prêmios para os atores/atrizes. A grande idéia foi criar o ‘colegiado’ de cinco artistas para entregar os prêmios, em vez de um só, como no passado. Isso é muito legal por várias razões: em vez da gente ver um clipe do ator indicado, um outro colega apresentava um texto bastante pessoal, o que era muito mais interessante. Em segundo, porque o Oscar é legal justamente para a gente ver como estão os atores hoje em dia, para ver as mulheres maravilhosas, etc. Então, com o novo formato, em vez de ver apenas um ator… você vê cinco! Great.

EFE/Michael Yada
Hugh Jackman faz piada com o filme ‘O Lutador’

Seguindo essa lógica de que todo mundo vê o Oscar para ver as celebridades, o Oscar deste ano teve outra sacada muito legal. Você notou que a platéia estava mais próxima do palco? Eu notei. E entendi por que, na verdade algo muito óbvio: não há ‘cenário’ melhor do que mostrar as próprias celebridades. Do jeito que era antes, eles ficavam longe, distantes, quase não apareciam no fundo da tela. Agora, não: Quando Hugh Jackman se aproximava só um pouquinho da platéia, já dava pra gente ver toda a galera no fundo: Angelina Jolie, Brad Pitt, Kate Winslet, Meryl Streep…

Fast-forward:

Reuters/Mike Blake

Kate Winslet, Sean Penn e Penélope Cruz, com seus merecidos Oscars

1. Penélope Cruz como atriz coadjuvante foi ótima. Mas ela deve ter ficado muito brava quando, no texto de apresentação, disseram que ela ‘às vezes não se entendia o que ela falava’. É uma referência ao fato de que, apesar de tantos anos em Hollywood, Penélope não aprendeu a falar inglês fluente – fato confirmado no discurso de agradecimento do prêmio: não deu para entender ela falando nem em espanhol, quanto mais em inglês. Será que existe fono em inglês?

2. Os vencedores de melhor ator/atriz foram perfeitos: Kate Winslet é minha atriz favorita há alguns anos. Além disso, ela estava linda, com uma cara boa, de Yves Saint-Laurent, pose de diva, me lembrou até a Ingrid Bergman… Sean Penn, que está muito bem como um homossexual em ‘Milk’, também mereceu. Dizem que o Mickey Rourke deveria ter ganho como o lutador decadente de ‘O Lutador’, mas aí acho que seria exagero. Afinal, ele nem precisou representar…

3. Heath Ledger ganhou como Coadjuvante por ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’, o que já era mais do que esperado. Será que ele teria sido indicado se não tivesse morrido? O Coringa dele é incrível, mas será que… bom, deixa pra lá. Talvez até James Dean teria sido contratado por Bollywood se estivesse vivo…

4. Você viu o casal Sarah Jessica Parker, de Sex and the City, e ator Matthew Broderick? Os dois são ótimos, etc, mas fiquei meio deprimido. Se o ator de ‘Curtindo a Vida Adoidado’ está de cabelos brancos, então o tempo está passando muito rápido mesmo.

5. A Jennifer Aniston, ex-Brad Pitt, estava sentada ao lado do guitarrista John Mayer. Ué, mas o casal já terminou há algum tempo… Ou eles voltaram, ou ela pediu para ele ir com ela para não ficar chato na frente do Brad e Angelina. Imagina se um dos dois ganhasse? Seria humilhante para Jennifer, não?

6. Quem viu a Beyoncé no Oscar não precisava ter visto nenhuma rainha de bateria do carnaval brasileiro: a cantora estava seguindo exatamente a mesma estética ‘coxas-Roberto-Carlos’ (o jogador, não o cantor) que reinou no mundo do samba.

REUTERS/Danny

Alicia Keys chega para a tradicional festa da Vanity Fair, após o Oscar

7. Achei a Jessica Biel e a Kate Winslet maravilhosas, mas minha favorita foi a cantora Alicia Keys. Com tantos shows internacionais, por que ninguém convida a Alicia Keys para cantar no Brasil? Se precisar de um intérprete, aposto que um certo jornalista brasileiro faria o trabalho perfeitamente. De graça.

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