Os taxistas e a Lei Seca

Estadão

21 de julho de 2008 | 11h08

Pedro Cardoso é Agostinho, um taxista com estilo

Antes mesmo da Lei Seca eu já gostava de sair à noite de táxi. Fico mais tranqüilo, não apenas porque não terei que dirigir para casa depois de beber, mas também porque não precisarei me preocupar com estacionamentos extorsivos e manobristas metidos a Schumacher.

Há outra razão mais, digamos, psicológica. Acho que os taxistas são belos representantes da sociedade. Não acho que formem um grupo homogêneo, apesar de terem características em comum, como o amor pelo Maluf e a incrível capacidade de incluir um comentário sobre o clima no meio de praticamente qualquer assunto.

Também não sei se é só comigo (não, não é), mas os ‘meus’ taxistas são sempre interessantíssimos, mesmo quando não abrem a boca. Como o cara que me levou outro dia: ele me ‘perguntou’ o endereço com uma levantada de cabeça, e agradeceu a gorjeta sorrindo sem mostrar os dentes. No dia seguinte foi o oposto: o taxista falava tanto que quase não me deixou dizer o endereço para onde eu queria ir. O pior é que ele tinha a língua mais presa que a do Cazuza. Talvez a língua dele tenha ficado presa… no trânsito.

Mas a experiência que mais me marcou foi uma perigosa viagem até o Itaim. O táxi tinha um cheiro azedo que não distingui se era de suor ou de algum saco de mexericas podres no banco de trás. Aí o taxista abriu a boca: ele estava bêbado. Fiz essa brilhante descoberta não só pelo hálito de álcool, mas porque sua voz estava arrastada e lenta como naqueles áudios que o Fantástico usa para disfarçar a voz de alguém que não quer ser identificado. “Ooondeee o seeenhooor vaaaiii?”, perguntou, numa frase que demorou cerca de 45 segundos. Perguntei sua opinião sobre a Lei Seca. Ele era a favor, porque era um absurdo alguém beber e sair por aí dirigindo um táxi, ou melhor, um carro. E garantiu que só havia bebido em duas ocasiões na vida.

Antes de perguntar se eu havia sido premiado com a ocasião número três, cheguei ao meu destino. Não sou religioso, mas fiz o sinal da cruz oito vezes. Talvez um manobrista metido a Schumacher não seja tão ruim assim.

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