Os primeiros 40 anos

Estadão

04 de agosto de 2010 | 16h08

FM40 Obama

Há muitos anos ouço que a vida começa aos 40. Sempre achei estranho, desde criança. “Quer dizer que eu ainda não nasci?”, perguntava aos mais velhos, em arroubos de existencialismo – muito antes de saber o que era existencialismo.

Pois é, hoje, quarta-feira, 4 de agosto, às 4 da tarde, fiz 40 anos.

Quando conto isso, costumam me perguntar se estou sentindo alguma diferença, se meus ombros ficaram mais pesados com a chegada de uma data tão simbólica.

Talvez ainda não tenha caído a ficha, mas juro que me sinto exatamente igual. Não estou enfrentando nenhuma crise da meia idade, não estou preocupado em saber qual é o sentido da vida. Sou apenas isso que sou, ou sou tudo isso que sou, não importa. Outro dia, minha filha Isabel disse uma frase que me fez refletir: ‘Papai, eu sou eu’. Deve ser a frase mais complexa que ouvi nos últimos quarenta anos.

Aliás, fiz muita coisa nesses quarenta anos. Escrevi livros, gravei discos, conheci lugares interessantes. Casei, separei, talvez case de novo. Tenho uma filha linda, amigos maravilhosos, uma família que sempre me apoiou. E daí vem um velhaco metido a filósofo e diz que hoje é que minha vida vai começar? Não quero que minha vida comece: quero apenas que ela continue. E por um bom tempo.

Se me perguntassem uma década atrás o que eu me daria de presente hoje, as respostas poderiam variar entre uma casa na praia, um Mercedes conversível ou uma viagem de volta ao mundo. Mas sabe o que eu me dei na vida real? Uma máquina de lavar. O dia a dia é muito mais poderoso do que jamais sonhariam nossos sonhos. Como disse John Lennon, a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Se não é a frase mais perfeita do mundo, é a mais adequada para dizer a alguém que vai fazer 40 anos.

Também me perguntam o que acho de estar ficando velho. A resposta é simples: é melhor fazer 40 anos do que não fazer 40 anos.

A grande verdade é que a vida não começa aos 40, mas também não termina (pelo menos é o que eu espero). Os sonhos é que diminuíram: há, certamente, menos tempo para começar tudo de novo. Já sei, por exemplo, que não serei um piloto de Fórmula 1, um astro de Hollywood ou um toureiro de Madri. Nunca farei um gol numa Copa do Mundo; nunca atravessarei a nado o Canal da Mancha, nunca escalarei o Everest. Mas quem disse que eu quero?

Quero apenas continuar na minha estrada, mesmo com os pneus um pouco mais gastos. A vida não começa aos 40, ela começa quando você olha no espelho e diz para si mesmo: eu sou eu.

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Felipe MachadoPalavra de Homem

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