Onde vivem os monstros? Aqui mesmo

Estadão

11 de novembro de 2009 | 14h09

Max, de Onde Vivem os Monstros

Max Records: Baseado no livro de Maurice Sendak, o filme de Spike Jonze é uma fábula sobre o amadurecimento e a vida. O livro de 1963 foi criticado por a mãe chamava o filho de ‘monstro’

Há palavras que entram e saem de moda. Hoje em dia tudo é ‘lúdico’, por exemplo. Não sei se é porque tenho uma filha pequena ou porque as pessoas acham o adjetivo, sei lá, elegante. Só sei que lúdico é uma boa definição para ‘Onde Vivem os Monstros’, filme que chega ao Brasil em janeiro de 2010. Eu fui a uma exibição em Nova York e posso dizer que, como filme infantil, é razoável. Mas como entretenimento para adultos, ele não é apenas lúdico. É maravilhoso.

O filme é baseado no livro de 1963 de Maurice Sendak, lançado aqui recentemente pela Cosac Naify. Tem lindas ilustrações e poucas palavras – 338, para ser exato. Foi por isso que Sendak pediu ao diretor Spike Jonze para fazer o filme de acordo com a sua própria interpretação da história. E foi isso que Jonze fez.

Só para lembrar, Jonze dirigiu ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Adaptação’ e vários clipes da Björk, o que revela que ele não é um cara, digamos, muito normal. Deve ser por isso que ‘Onde Vivem os Monstros’ é tão bom. E todos o que envolve o filme foi feito com muito capricho, como a trilha sonora (veja ‘All is Love’, a melhor música). O disco foi gravado por Karen O’ & The Kids, projeto da vocalista do Yeah Yeah Yeahs! (Detalhe: O disco com a trilha do filme é bem melhor que a banda oficial dela). Até o roteirista Dave Eggers, que co-escreveu o roteiro com Spike Jonze, tirou uma casquinha: lançou ‘Os Monstros’, adaptação literária do roteiro do filme (lançado aqui pela Cia. das Letras).

Resumo: Max é um garoto que adora uma bagunça. Um dia ele exagera tanto que sua mãe o manda para o quarto mais cedo, sem jantar. Ao chegar lá, Max começa a ‘viajar’ e imagina que está no mar, navegando até uma ilha. O lugar é habitado por monstros e só há uma maneira de sobreviver: se autoproclamar rei da ilha. Os monstros aceitam e o coroam.

Como rei, Max se vê obrigado a zelar pelo bem-estar de seus monstruosos e infantis súditos. Aí, ‘do outro lado’, enfrenta questões complexas, típicas dos adultos. Descobre que a vida é feita de limites, sentimentos, responsabilidades. Decide então voltar para casa, para seu jantar ainda quentinho sobre a mesa.

O filme é muito mais prolixo, claro, mas também há outras cores ali. Jonze atendeu Sendak e fez realmente uma interpretação própria da história básica do livro. No filme os pais de Max são separados, e isso reflete diretamente na relação do garoto com os monstros. A ilha é uma projeção do mundo de Max, com tudo de bom, ruim… e único que há nele. Nesse sentido, tanto o livro quanto o filme são belos e mágicos.

Sim, há monstros dentro de cada um de nós, não importa a nossa idade. Há lugares para onde fugimos quando não queremos encontrá-los, e claro que não estou falando literalmente. Às vezes eles vêm quando colocamos a cabeça no travesseiro…

Mas enquanto crianças podem abandonar seus ‘reinos’ e voltar para casa em tempo para o jantar, não há outra opção a não ser resolver os problemas, fazer o que parece certo, viver a vida.

A história de Sendak é sobre responsabilidade, mas também sobre a essência do que é ser humano. Erramos, acertamos, aprendemos. E seguimos assim, dia após dia, enfrentando os monstros que de vez em quando surgem pelo caminho.

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