Olha o que eu sei fazer

Estadão

22 de março de 2010 | 18h12

Gladiador, filme de Ridley Scott

Gladiador, filme de Ridley Scott

Na época dos gladiadores, a expressão ‘olha o que eu sei fazer’ tinha uma versão um pouco mais, digamos, sangrenta. ‘Olha o que eu sei fazer com a cabeça do meu inimigo’ era o grande hit do Coliseu

Minha filha tem apenas 3 anos, mas sabe exatamente o que fazer para chamar minha atenção. É só ela dizer: ‘olha o que eu sei fazer’, e rodopiar no ar com os bracinhos para cima, como uma pequena bailarina.

‘Olha o que eu sei fazer’ deve ser uma das frases mais ditas da história da humanidade – nem sempre com palavras, claro. Todas as pessoas do mundo dizem isso todo o tempo: num encontro com uma garota, numa entrevista de trabalho, numa conversa no bar. Eu mesmo estou fazendo isso agora, escrevendo este texto. ‘Olha o que eu sei fazer’ é o que diferencia humanos dos outros animais – pensando bem, os animais também agem da mesma forma. É só ver como os pavões atraem suas fêmeas.

‘Olha o que eu sei fazer’ é a razão pela qual pagamos milhões de dólares a um jogador de futebol ou a uma estrela do rock. Eles ‘sabem fazer’ coisas que as outras pessoas não sabem, por isso admiram quem sabe. E, talvez ainda mais importante, é parte intrínseca deles gostar de mostrar que sabem fazer coisas que as outras pessoas gostariam de saber fazer.

(Olha o que eu sei fazer: escrever frases que parecem mais complexas do que são.)

Assim caminha a humanidade: as mulheres de Neanderthal gostavam dos homens que caçavam melhor, e aposto que os caras chegavam com o bicho morto nos ombros e diriam algo como ‘Badbsdfdsafhdubd’ – o equivalente a ‘olha o que eu sei fazer’ em neanderthalês. As mulheres também tentavam inventar as melhores receitas de Pterodáctilo ao Molho de Pedra, talento que seria a versão feminina e pré-histórica de ‘olha o que eu sei fazer’.

Na Grécia, filósofos de Atenas e soldados de Esparta brigavam para ver quem tinha o ‘olha o que eu sei fazer’ mais digno do poder. Em Roma, os gladiadores ganhavam o público com versões sangrentas da expressão, como ‘olha o que sei fazer com a cabeça do meu inimigo’, por exemplo. E por aí vai.

Ter um carro deve ser o maior símbolo de ‘olha o que eu sei fazer’ do nosso tempo. O ator Jerry Seinfeld defende essa teoria: ele diz que não bastava o homem ir à Lua; tivemos que levar um carro para dar uma voltinha por lá. Carros dizem muito sobre o que sabemos fazer: ganhar dinheiro, principalmente. E ganhar dinheiro deve ser o ‘olha o que sei fazer’ mais atrativo de todos os tempos.

Há, porém, formas menos mercantilistas de se valorizar alguém. Todo mundo sabe fazer algo interessante, todos têm seu valor. Minha filha rodopiando com os bracinhos para cima, por exemplo, é a coisa mais valiosa do mundo. E eu, coruja, nunca resisto: olho em volta e chamo a atenção dos seus amiguinhos: ‘Gente, olha o que ela sabe fazer!’