Obrigado por tudo, Murilo

Estadão

14 Maio 2007 | 21h23

Murilo

O papa foi embora no último domingo, mas meu líder espiritual, cultural e profissional me deixou alguns dias antes. Na sexta-feira às 11 da manhã, para ser mais exato. Murilo Felisberto não me deu apenas um emprego: ele me deu uma carreira.

Murilo, que com muito orgulho eu tinha intimidade para chamar de Mu, foi a pessoa mais interessante que já conheci. Primeiro, na DPZ, como Diretor de Criação, em 1997. Fui mostrar minha pasta (horrível) de redator, e não sei por que nem como, mas ele me convidou para ficar. Ele deve ter visto alguma coisa ali; não sei dizer o que era, porque o Murilo tinha isso de ser meio misterioso. Ou tímido, dizem alguns. Algumas vezes eu mostrava uma série com dezenas de títulos para anúncios; ele lia, olhava para mim e me devolvia o papel sem dizer nada. Era frustrante? Muito. Mas aí eu percebia que tinha que adivinhar o que era bom e o que era um lixo. Acredite, isso ensina muito.

Ensinar, aliás, é o que ele fazia de melhor. Por linhas tortas, mas ainda assim eram grandes aulas. Não no sentido professoral da palavra – ele não tinha paciência para isso -, mas no modo de contar uma história qualquer e ressaltar o que era importante e o que não era. Um detalhe pequeno, que você nem dava bola, podia ser a coisa mais interessante do mundo; bastava saber olhar. E isso foi uma coisa que o Murilo ensinou não apenas a mim, mas às dezenas de profissionais que choraram como eu na última sexta-feira: é preciso prestar atenção nas coisas importantes. Mesmo que elas estejam no pé da página.

Na DPZ, mais precisamente no 7º andar, o Murilo criou uma turma que mantém pouco contato mas muito carinho até hoje: Ilan, Dani, Rafa, Luiz Antonio, Fabião, Theo, Robson, Corina, Karin, Andréa, eu e vários outros. A gente se fala de vez em quando; gostaria que fosse mais frequente.

Saudades dói pra burro (ele ia odiar ler ‘pra’ em vez de ‘para’)… já estou com saudades de ver o Murilo olhando por cima dos óculos redondos de aro de tartaruga; das lapiseiras e canetas amontoadas no bolso da camisa; das revistas e jornais debaixo do braço ou se acumulando em pilhas e pilhas na sua mesa; do jeito com que ele conversava com você e, sem mais nem menos, sacava a lapiseira do bolso e rabiscava seu rosto num pedaço de papel em 15 segundos. E ficava genial. Ainda bem que guardei os meus desenhos.

Nada, no entanto, dava mais prazer ao Mu do que uma bela fofoca. E isso não tem nada de pejorativo. Murilo transformou a fofoca em forma de arte superior. Hoje vejo que aquilo não era fofoca: era uma base de informações pessoais sobre gente conhecida. E é o que move o mundo, acredite.

A última vez que falei com o Murilo foi no dia 28 de abril, dois dias antes de ele ser internado. Liguei para contar algumas novidades profissionais, mas nem precisava: ele já sabia de tudo. E com detalhes. Ele queria outros detalhes, outras histórias de amigos em comum, outros detalhes de histórias de amigos em comum. “Ando meio caseiro”, contei.

Hoje eu me arrependo: eu deveria ter contado mais histórias, eu deveria ter ligado mais para ele, eu deveria ter frequentado mais a tradicional mesa do Spot das quintas-feiras. Eu deveria ter ficado mais próximo do meu querido amigo e mestre Murilo Felisberto. Mas a vida é assim, a gente nunca sabe o que nos espera na manhã seguinte. Nunca dá tempo para nada, tudo que realmente importa é deixado para amanhã. Ou para a semana que vem.

Em 2000, o Murilo voltou ao Jornal da Tarde, inventado por ele, e me contratou como repórter. A cada texto, a cada frase que eu escrevia, eu imaginava o Murilo lendo e comentando. Às vezes, vinham broncas reais, sempre com razão. A culpa era sempre minha, mas eu só percebia os erros depois que ele me apontava onde eles estavam. E lá ia eu para o próximo texto, tentando imaginar o que eu poderia fazer para impressioná-lo, para que ele me chamasse na sala e dissesse: ‘aí, Felipão, gostei da matéria’, ou algo do tipo. Mas isso também não acontecia com frequência. Às vezes ele me chamava e dizia: “leia bem isso que você escreveu”. E só. Eu tinha que adivinhar o que era. Nem sempre adivinhava, mas a vida é assim mesmo.

Estou um pouco perdido em um mundo onde gente como o Murilo é cada vez mais rara. Sei que temos a obrigação de sermos os Murilos de amanhã, mas a responsabilidade é muito grande.

Agora só resta fechar os olhos, continuar a trabalhar e parar de vez em quando para se perguntar: “o que será que o Murilo acharia deste texto?” Ele abaixaria os óculos, olharia de volta para mim e não diria nada.