O velho jogo da manipulação

Estadão

15 de janeiro de 2009 | 12h13

Há casais que gostam de passar o tempo livre jogando baralho, outros preferem aproveitar o verão para jogar frescobol na praia. Mas entre os joguinhos praticados por casais, não há nenhum mais comum e desagradável que a boa e velha manipulação.

Quando se pensa simplesmente na palavra ‘manipulação’, logo imaginamos aqueles esquemas de filme de espionagem, feitos às escuras, cheios de estratégias complexas e sofisticadas. Pois a manipulação entre casais não precisa de nada disso. É bastante simples e, na verdade, quase inevitável.

Fazer alguém mudar seu jeito para agradar ao outro é uma das muitas maneiras de se manipular alguém, talvez a mais popular. Como toda a manipulação, no entanto, ela pode ser revertida em algum futuro próximo. E aí o jogo fica confuso e desequilibrado, como se alguém abandonasse subitamente um dos lados da gangorra.

Como em todo jogo, há um vencedor e um vencido. Mudar as ideias, mudar o modo de vida, mudar o comportamento… vale tudo para se conseguir criar alguém ‘perfeito’. Pena que essa perfeição é ilusória e, obviamente, desaparece no ar em algum momento – geralmente junto com o relacionamento.

Controlar a cabeça de uma pessoa é uma enorme responsabilidade, uma encrenca sobre a qual nunca entendemos a dimensão exata até o dia em que surgem os primeiros indícios de efeitos colaterais: insegurança, perda de identidade, ansiedade, medo. Por definição, a palavra ‘manipular’ significa ‘manejar’; e lembre-se que só objetos podem ser manejados.

Toda técnica de manipulação prevê o sistema de punição/recompensa. E é nisso que se baseia o dia-a-dia dos casais; eu faço isso se você fizer aquilo. Não faça isso ou então eu serei obrigado a fazer aquilo. Mas se você fizer isso, aí então prometo que eu faço aquilo. Combinado?

Inspirada pelo livro de Robert Masters e Jean Houston, a letra da música Mind Games, de John Lennon, falava de ‘jogos da mente’ no sentido positivo da expressão, quando duas pessoas juntam suas cabeças para desejar algo positivo em comum, no caso, a paz no mundo, a felicidade, etc. Seria ingenuidade acreditar que todo o mundo tem essa grandeza de alma, essa generosidade. Mas não custa nada imaginar um mundo assim, onde cada um pode ser como realmente é, sem ninguém tentando mudar o seu jeito.

Talvez a liberdade de ser quem você é traga a felicidade, não sei. A única coisa que eu sei é que ter alguém puxando as suas cordinhas como se você fosse uma marionete com certeza não a trará.

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