O último arpeggio de Oscar Peterson

Estadão

26 de dezembro de 2007 | 19h54

oscar

Fiquei muito triste com a morte de Oscar Peterson, um dos grandes nomes da história do jazz e um dos meus pianistas favoritos. Tive a oportunidade de vê-lo ao vivo em 2004, tocando no Festival Internacional de Jazz de Montreal, evento para o qual fui convidado a cobrir.

Foi um prazer ver Oscar Peterson de pertinho, os dedos longos e finos correndo de um lado para o outro com uma agilidade inacreditável para um homem, então, com 80 anos. O que mais me impressionou em sua técnica foi a velocidade das escalas, não apenas uma rapidez desesperada, desnecessária, mas uma sequência incrivelmente rápida de frases interessantes e complexas. Como o bom jazz deve ser. Em um trecho da apresentação, Peterson recebeu no palco Oliver Jones, pianista canadense e seu amigo de infância. Foi emocionante vê-los emocionados.

Oscar Peterson costumava fazer uma coisa que não acreditei quando vi pessoalmente: ele tocava arpeggios simultâneos com as duas mãos, cada uma tocando uma escala diferente. Quem é músico sabe como é difícil fazer isso. Quem não é, dá para ter uma vaga idéia imaginar alguém escrevendo com as mãos esquerda e direita, ao mesmo tempo, dois textos diferentes. Grosseiramente, é mais ou menos isso.

Como uma última e humilde homenagem, reproduzo aqui trechos da minha matéria que saiu no Jornal da Tarde com a crítica do show de Peterson.

Que os deuses do jazz o tenham.

Oscar Peterson, a estrela de Montreal
12/7/2004

Miles Davis era um gênio do trumpete, mas nunca foi muito bom com palavras. Seu maior erro, talvez, tenha sido afirmar em 1975 que o jazz estava morto. Os dois milhões de apreciadores do estilo, que lotaram as ruas durante a 25ª edição do Festival Internacional de Jazz de Montreal, encerrado ontem, são a maior prova disso.

O Festival de Montreal começou há duas semanas, com uma festa de gala regada a voz inconfundível de Diana Krall. Na seqüência, um casting que fala – e toca – por si só: Oscar Peterson, George Benson, John Pizzarelli, Ibrahim Ferrer, Dianne Reeves, Tony Bennett e outros.

O último fim de semana, no entanto, promoveu um encontro que certamente vai ficar na memória das três mil pessoas que tiveram a sorte de conseguir um ingresso para a concorrida sala Wilfrid-Pelletier, no palco mais elegante da cidade, o Place des Artes.

No último sábado, os pianistas canadenses Oscar Peterson e Oliver Jones dividiram o palco pela primeira vez na história, tornando assim realidade o que Duke Ellington havia previsto tanto tempo antes: o jazz é, antes de tudo, sonho.

“Foi graças a Oscar que comecei a tocar piano”, afirmou Jones à reportagem. “Todos viviam me dizendo ‘você viu o que Oscar fez’, ‘você viu o que Oscar conseguiu?’, e isso me fez querer aquela vida também.” Peterson e Jones cresceram juntos na mesma rua e foram à mesma Montreal High School. Mas como Peterson era nove anos mais velho, Jones era visto apenas como um garoto.

Ambos virtuosos do piano, mas seguindo cada um seu o seu próprio caminho, Peterson e Jones acabaram separados pelo destino. Oliver Jones, inclusive, estava aposentado há cinco anos, mas não teve como recusar o convite para a jam session de luxo, justamente na cidade onde ele e o amigo de infância cresceram. “Ensaiei um pouco e escolhi músicas que nunca saíram da minha cabeça.”

Hoje, Peterson tem 80 e Jones, 71. Mas voltaram a se sentir como crianças no show transmitido ao vivo pela TV canadense. Acompanhado por um baixo e bateria, Oliver Jones entrou primeiro e desfilou clássicos como ‘Over The Rainbow’, ‘Falling in Love With Love’ e ‘Again Diana’, dedicada a Diana Krall. Muito bem-humorado e visivelmente emocionado, contou à platéia que tem estado “muito ocupado” para tocar. “Passei os últimos cinco anos jogando golfe”, brincou. Como um time que entra em campo sabendo que vai vencer, terminou com um medley de George Gershwin que começou com ‘Rhapsody in Blue’.

Aplaudido de pé pelo público, Oscar Peterson entrou caminhando com ddificuldade. Espécie de herói local para os amantes da música, o pianista de dedos ágeis e rosto sério se apresentou com baixo, bateria e guitarra. Tocou ‘Night Times’, ‘When the Summer Comes’ e vários outros clássicos. Ao final, enquanto agradecia, entra em palco um outro piano Yamaha, esperando o amigo de infância.

Juntos, tocaram o hino gospel de Peterson, ‘Hymn to Freedom’. Cantando juntos melodias de liberdade e amizade, os dois pianos foram ovacionados por uma platéia quente até para os padrões canadenses. Os dois heróis da música saíram abraçados, felizes por terem realizado o sonho que o colega Duke Ellington sabia ser a essência do jazz. Mas com uma vantagem: o público que estava ali não estava sonhando.

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