O show do Green Day foi um musical 'punkokê'

Estadão

21 de outubro de 2010 | 19h39

Billie Joe Armstrong faz piruetas no palco do Anhembi, em São Paulo. Foto de Leonardo Soares/AE

O que um show de punk e um musical da Broadway têm em comum? O palco, diria alguém. As luzes, diria outro. Em termos conceituais, no entanto, acredito que há apenas um ponto de intersecção entre estilos tão antagônicos: o trio norte-americano Green Day.

O Green Day tocou ontem no Anhembi, em São Paulo. Foi um dos últimos shows da megaturnê mundial que começou em maio, e a última apresentação no Brasil (antes eles tocaram em Porto Alegre, Rio e Brasília). Foi uma verdadeira celebração de rock & roll e teve direito a tudo: covers inusitados, piadinhas (inside jokes, principalmente), canções de todas as fases da carreira da banda, explosões, papel picado. O grande destaque, no entanto, foi mesmo o repertório do disco ‘American Idiot’, o maior sucesso do Green Day.

E, por mais que seja irônico, é justamente esse disco que nos remete à Broadway: a ópera-rock baseada em ‘American Idiot’ virou um musical em Nova York. Dirigido por Michael Mayer, conta a história de um anti-herói que troca uma cidadezinha pequena pela megalópole, e acaba entrando de cabeça na tríade sexo, drogas e rock & roll. Ou punk & roll, se você preferir.

O que chama a atenção é que o Green Day é considerada por muitos uma banda punk. Ou seja, nada mais diferente de um musical da Broadway, certo? Mais ou menos. Bem, se a gente lembrar que o punk nasceu de uma jogada de marketing do empresário Malcolm McLaren, até que faz sentido.

No final dos anos 70, McLaren queria chamar atenção para sua loja de roupas em Londres, e acabou criando o grupo que se tornaria o pioneiro do punk britânico. Ele pegou uns caras esquisitos na rua, batizou de Sex Pistols e entrou para a história da cultura mundial. Eles não sabiam tocar direito, mas o lema do it yourself, ‘faça você mesmo’, justificava a completa falta de qualidade musical.

Criado em 1987 na Califórnia, o Green Day é uma banda essencialmente punk. Billie Joe Armstrong (guitarra e vocal), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria) tocam canções simples, feitas de três acordes, sem solos de guitarra, exatamente como manda o manual do punk. A canção ‘American Idiot’, por exemplo, é uma bela crítica ao american way of life, mais especificamente ao estilo de vida americano sob o governo Bush. Em um momento do show, Billie chegou a gritar no palco: ‘Eu odeio os Estados Unidos! Eu quero me mudar para o Brasil!’

Piadas à parte, vamos ser justos: não deixa de ser uma bênção da democracia viver em um país onde você pode lançar um disco chamado ‘Idiota Americano’ e ainda lucrar (pra burro) com isso. Os Estados Unidos só são os Estados Unidos porque permitem que alguém lance um disco falando mal do país e, em seguida, saia em uma turnê enorme lá mesmo, culminando com a adaptação dessa ‘crítica’ num supermusical da Broadway. Desconfio que a versão chinesa de Billie Joe Armstrong não teria permissão para lançar o ‘Idiota Chinês’ e continuar livre, leve e solto.

Como se vê, o Green Day abusa das letras subversivas, dos cortes de cabelo de cores e formatos radicais, etc. Ou seja, eles têm tudo para ser punks. Mas, como disse Karl Marx, a história se repete como farsa.

O show de ontem do Green Day em São Paulo foi um típico espetáculo Punk-Broadwayiano, se é que existe tal adjetivo. Havia uma certa rebeldia, mas ela é muito bem comportada; em vez de punks, a plateia estava cheia de adolescentes, muitos deles acompanhados por seus pais.

Isso quer dizer que o show foi ruim? De maneira alguma. Foi excelente. Porque o Green Day pegou a estética do punk e o transformou em pop, no sentido positivo da palavra. As canções são todas parecidas? São. Mas são excelentes, pegajosas, melodicamente perfeitas. E em alguns momentos, o som do Green Day se aproxima mais de um animado rock & roll básico dos anos 50 do que do punk tradicional, apostando em sequências harmônicas simples e quadradinhas. É bom notar que há também algumas baladas, o que faria o baixista do Sex Pistols, Sid Vicious, se virar no túmulo.

Mais do que um show, o Green Day ontem foi uma festa. O que mais chamou a atenção foram os vários convites para os fãs subirem ao palco e cantarem as músicas com a banda, uma espécie de ‘karaokê-punk’, ou ‘punkokê’. Um dos fãs, por sinal, se deu muito bem: Billie Joe disse que ele havia sido ‘o melhor vocalista de toda a turnê’ e o garoto saiu do palco com uma guitarra de presente. Imagina o que deve ser para um fã do Green Day subir no palco em um show para 30 mil pessoas, cantar uma música com a banda e ainda sair de lá com uma guitarra? Como se vê, punks também realizam sonhos.

O que incomodou um pouco foi o excesso de ‘populismo punk’ do show. Acho que nunca antes na história deste país um artista falou tantas vezes ‘São Paulo’ em um palco: 427 (é brincadeira, eu não contei. Mas foi por aí). E a cada 30 segundos, Billie Joe gritava ‘ê ô’ para o público, que respondia obedientemente como todo bom adolescente bem comportado.

A plateia, inclusive, rende comentários à parte. Na minha frente, na pista Premium, estava um homem e um adolescente. Aparentemente, o pai estava curtindo mais o show que o filho. De repente, passou um vendedor de cerveja. O pai comprou uma e a ofereceu ao filho. O garoto fez uma cara de espanto, mas o pai insistiu e ele aceitou. Deve ter sido a primeira cerveja que pai e filho tomavam juntos. Foi uma cena bonitinha. O que há de punk nisso? Nada. Ué, punks não podem ser bons pais?

Assim como também não havia nada de punk em meia-dúzia de praticantes de jiu-jítsu fazendo o ‘mosh’, aquela dança em que todo mundo se esbarra e empurra o outro. Esse jeito de pular, meio dança, meio luta, era uma coisa típica do punk no início do movimento. Mas o que dizer de alguns garotos bagunceiros vestindo calça Diesel e fazendo isso na pista Premium do Anhembi, que custava ‘apenas’ R$ 250? Eu diria que é apenas mais uma razão para Sid Vicious se virar no túmulo.

O que não dá para criticar, no entanto, é o vocalista Billie Joe Armstrong. O cara é um verdadeiro showman, único no mundo do rock. Fiquei imaginando ele ainda garoto, crescendo na Califórnia, baixinho, invocado, talentoso. Sabe criança hiperativa? Pois essa seria a descrição exata do cara no palco, apesar de ele ter 38 anos.

E o repertório? Tocaram todas as famosas, e muito mais, é só conferir no setlist abaixo. Tocaram trechos de ‘Sweet Child O’Mine’, do Guns ‘N’ Roses (com Billie tirando sarro de Axl Rose), ‘Rock and Roll’, do Led Zeppelin, ‘Satisfaction’, dos Stones, ‘Hey Jude’, dos Beatles… fora os números meio ‘Vaudeville’, com fantasias típicas de um musical da Broadway. Ao final do show, enquanto Billie Joe Armstrong comemorava o sucesso de sua turnê mundial, Sid Vicious se virou mais uma vez no túmulo.

Green Day Setlist

Song of the Century
21st Century Breakdown
Know Your Enemy
East Jesus Nowhere
Holiday
Nice Guys Finish Last
Give Me Novacaine
Letterbomb
Are We the Waiting
St. Jimmy
Boulevard of Broken Dreams
Burnout Play Video
F.O.D.
Geek Stink Breath
J.A.R.
Stuck With Me
Dominated Love Slave
Paper Lanterns
2000 Light Years Away
Hitchin’ a Ride
When I Come Around
Iron Man / Rock ‘n’ Roll / Sweet Child O’ Mine / Master Of Puppets / Highway To Hell / Baba O’ Riley / Eruption
Brain Stew
Jaded
Longview
Basket Case
She
King for a Day
Shout / Break On Through / (I Can’t Get No) Satisfaction / Hey Jude
21 Guns
Minority

Bis:
American Idiot
Jesus of Suburbia

Bis 2:
Whatsername
Wake Me Up When September Ends
Good Riddance (Time Of Your Life)

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