O Rappa novo: Ouvir '7 Vezes' é pouco

Estadão

05 de setembro de 2008 | 14h42

O Rappa

O Rappa acaba de lançar seu novo disco, ‘7 Vezes’. E é sensacional.

Confesso que não prestei muita atenção a O Rappa nos primeiro discos, ‘O Rappa’ (1994) e ‘Rappa Mundi’ (1996). Eu ouvia no rádio a versão deles para ‘Hey Joe’, do Jimi Hendrix, e pensava: o mundo precisa de uma versão de ‘Hey Joe’ em português?

(Resposta: Não.)

Também achava ‘Pescador de Ilusões’, do mesmo disco, meio enjoada, com um refrão meio grudento demais. Mas quando ouvi ‘Lado B Lado A’ (1999), percebi que estava diante de uma banda única na música brasileira. ‘Minha Alma (A Paz que eu não Quero)’, ‘Me Deixa’, ‘O que Sobrou do céu’ eram canções incríveis, com uma batida de hip hop, mas à brasileira, e com elementos de dub e reggae, um som visceral, bom para dançar, com letras interessantes e inteligentes, totalmente fora do esquema pop de ‘amor, diversão e ser feliz a qualquer custo’.

Lançaram o disco ao vivo ‘Instinto Coletivo’ (2001), mas aí veio um bandido e baleou o baterista Marcelo Yuka, deixando-o numa cadeira de rodas. O cara que denunciava a violência e ajudava a comunidade e os moradores de favela é vítima de um assaltante desgraçado; mais um daqueles casos que nos dão vergonha de ser brasileiro, mas isso já é uma outra história. Houve polêmica, talvez alguma briga entre os integrantes da banda, mas o fato é que Yuka saiu e formou o F.U.R.T.O., uma banda interessante mas panfletária-social demais para o meu gosto. (Só para se ter uma idéia, ele tocou no VMB da MTV com um boné do MST e uma bandeira da Palestina, etc, enfim, o anti-tudo.) O tecladista Marcelo Lobato foi para a bateria e começou uma nova fase da banda.

Nessa época eles começaram a trabalhar com o produtor Tom Capone. Conheci o Tom em 1996, quando ele trabalhava no estúdio AR, onde o Viper gravou o CD ‘Tem para Todo Mundo’. Nosso disco foi produzido pelo Mayrton Bahia (ex-Legião Urbana), mas um dia, durante uma sessão de cerveja, o Tom confessou que queria ter produzido nosso disco. Eu não o conhecia antes, mas depois de ver/ouvir o trabalho que ele fez com O Rappa, acho que teria sido uma honra para a gente. Viciado em guitarras e mestre dos timbres, Tom ‘criou’ um novo som para O Rappa, cheio de texturas e climas diferentes. Em 2004, saindo da festa do Grammy latino em Los Angeles, Tom – que havia sido indicado a cinco categorias, o recorde na história da música brasileira – teve um acidente de moto e morreu. Outra tragédia para O Rappa.

Mais uma vez, O Rappa teve que sobreviver – talvez como os sofridos personagens de suas letras.

Com o ‘Acústico MTV’ (2005) eu realmente virei fã do Rappa. Acho que eles consolidaram um estilo que não existe igual no mundo: conseguem reunir uma brasilidade-carioca explosiva, fugindo da trilogia MPB/samba/pop, o que geralmente reina na música do Rio de Janeiro. ‘7 Vezes’ tem o tradicional dub/reggae marcado pelo baixo preciso de Lauro Farias, mas dá para ouvir mais a guitarra com wah wah de Xandão Meneses; o baterista Lobato não é virtuoso, mas segura a onda e o arroz com feijão; e o vocal do Marcelo Falcão é, na minha opinião, perfeito. Vamos deixar claro: ele tecnicamente não é um bom cantor, principalmente ao vivo. Mas Falcão é carismático e canta as letras com tanta verdade (e vontade) que é impossível não prestar atenção ao que ele está falando. Suas linhas vocais são quase percussivas, cheias de ‘ô ô ô’ e refrões que a galera adora acompanhar ao vivo. Tudo bem, as letras exageram nos temas fé/reza/céu/chuva, mas algumas fogem a isso de maneira bastante talentosa. É interessante ver a maneira como o Rappa associa religião e vida em comunidade (‘meu escudo, minha hóstia’); é um retrato do Rio de Janeiro que a gente quer esquecer, com trens lotados e trabalhadores que não vivem, mas sobrevivem.

Na letra de ‘O que Sobrou do céu’, de ‘Lado B Lado A’, O Rappa criava cenas, de certa forma, simples e ingênuas:

‘Faltou luz mas era dia
O sol invadiu a sala
Fez da TV um espelho
Refletindo o que a gente esquecia

O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal’

Em ‘Rodo Cotidiano’, o tema era o aperto dos trens de subúrbio:

‘O espaço é curto quase um curral
Na mochila amassada uma quentinha abafada
Meu troco é pouco, é quase nada

Não se anda por onde gosta
Mas por aqui não tem jeito, todo mundo se encosta
Ela some ela no ralo de gente
Ela é linda mas não tem nome
É comum e é normal

Sou mais um no Brasil da Central
Da minhoca de metal que corta as ruas
Da minhoca de metal
Como um Concorde apressado cheio de força
Voa, voa mais pesado que o ar
O avião do trabalhador’

Em ‘7 Vezes’, eles retomam esse tema, mas a metáfora agora é mais abstrata e complexa:

‘Disciplina de trem
Virtuose na vida tem
Maioria tem
Maioria contida tem
Nordestina tem
Na havaiana furiosa
Ruminando em silêncio
Engolindo sapo da vida’

‘7 Vezes’ é um disco para se ouvir muito mais que sete vezes.

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