O que poderia ter sido

Estadão

17 de novembro de 2008 | 11h24

Melinda e Melinda, de Woody Allen

Em ‘Melinda e Melinda’, filme de Woody Allen de 2004, a personagem de Radha Mitchell vive duas tramas paralelas. Na versão trágica, Melinda troca o marido por um artista decadente e acaba internada em um hospício. Na versão cômica, ela se envolve com um cara simpático interpretado pelo sempre divertido Will Ferrell. O que Woody Allen quis dizer com isso? Na minha opinião, muito mais do que apenas brincar com duas versões da mesma história.

Vamos supor que o filme, em vez de duas horas de duração, tivesse… sei lá, duas mil. Quantas versões Woody Allen poderia ter contado dessa mesma história? Ou melhor, quantas histórias diferentes um mesmo personagem poderia viver?

Imaginamos ter controle total sobre as nossas vidas, mas isso é relativo, para dizer o mínimo. Temos, sim, controle sobre as nossas escolhas… mas e para saber como nossas escolhas vão interagir com as escolhas dos outros? Como prever as conseqüências dos nossos atos se não temos como antecipar quais atos serão praticados pelos outros?

Ah, o livre-arbítrio, quanta liberdade nos proporciona e quantos problemas nos causa… Mas é uma característica humana inevitável; imagine se fôssemos programados por alguma força superior para viver determinada vida…

Confesso que tento não pensar muito no assunto, já que não temos poder para mudar o passado, mas de vez em quando me pego pensando em uma coisa que poderia ter sido e não foi, ou em uma coisa que não poderia ter sido, e foi.

Tenho certeza de que se você buscar na memória encontrará alguma memória na vida da qual se arrepende até hoje. E tenho certeza de que você não fez alguma coisa de que se arrepende por não ter feito. E como seria sua vida se tivesse feito aquilo? E se não tivesse? Seria diferente, claro, mas como? Melhor? Pior? Igual?

A vida é assim mesmo, até porque esse determinismo do acaso nem sempre vem para o mal. Aposto que muitos fatos que aconteceram na sua vida sem você querer também foram positivos de alguma maneira. Aquela coincidência maravilhosa que deu uma mãozinha para atrair seu amor para perto; aquela pequena tragédia evitada na última hora graças a um piscar de olhos. Sim, muitas coisas boas também acontecem sem que a gente precise fazer nada.
Por isso, é legal sorrir, seguir em frente e viver da melhor maneira possível. E se algum dia a sua vida virar um filme, tomara que a história tenha apenas uma versão: a versão cômica.

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