O que fazer em dias frios e chuvosos

Estadão

19 de julho de 2010 | 16h09

Luciana Vendramini: Dias frios e chuvosos são bons para resgatar memórias

Luciana Vendramini: Dias frios e chuvosos são bons para resgatar memórias

Todo mundo sabe que dias frios e chuvosos são perfeitos para ficar em casa. O que você sabe, mas talvez não se lembre (quem tem tempo para essas coisas?), é que dias frios e chuvosos também são muito bons para arrumar a vida.

Não estou falando no sentido poético, mas de arrumação mesmo: lembra daquele armário que você não abria há anos? Pois é.

Descobri há alguns dias por acaso que arrumar a vida é uma tarefa interessante; se você achar, claro, que foi o acaso quem derrubou uma caixa com fotos e papéis antigos na minha cabeça.

Antes que você pergunte, não havia nada que quebrasse lá dentro (obrigado pela preocupação). E a caixa nem era tão pesada assim a ponto de me machucar. O que machucou – mas também alegrou, surpreendeu e chocou – é o que havia dentro dela.

“Nossa, isso aqui sou eu?” é a primeira pergunta que faço ao ver uma foto tirada anos atrás. É engraçado ver fotos antigas. Sabemos que estamos olhando para nós mesmos, mas algo nos leva tão longe que torna a relação tempo-espaço algo mais do que uma equação matemática. O passado está a milhares e milhares de quilômetros de distância, e quem eu era virou uma imagem estática ou, no máximo, um filminho com alguns segundos de duração. E daí surge outra foto para sobrepor as memórias, chamando outra lembrança e mandando a anterior de volta para o disco virtual que nos acostumamos a chamar de cérebro.

“Nem me lembrava de ter namorado essa garota…” As arrumações em dias frios e chuvosos também têm o estranho poder de ressuscitar velhos espíritos. Amigos que desapareceram, ex-namoradas, colegas de trabalho que você nunca mais viu. Estão todos lá, vivos, a maioria sorrindo. E para lá voltarão ao final da arrumação. Ou não: arrumações também têm o estranho poder de provocar ligações telefônicas inusitadas e transformar fotos antigas em reencontros.

Há também papéis carimbados, escritos à mão, provas oficiais de coisas que fiz na vida. Ingressos de shows (minha coleção favorita), carteiras escolares, agendas velhas. Para que guardar tudo isso? Para que saber quanto você tirou em biologia em 1985? Para que saber que você foi ao dentista em 3 de outubro de 2003?
Digo isso, mas arrumo direitinho e guardo tudo no mesmo lugar. A caixa está mais magra, um pouco de sua gordura sentimental foi jogada no lixo.

Mas algumas coisas ficam e ficarão justamente para que no futuro eu possa arrumar tudo de novo, olhar as fotos, (re)descobrir quem eu sou a partir de quem eu fui. Não há pressa: ano que vem tem outro inverno.

Foto: Monalisa Lins/AE

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