O poder da aura

Estadão

12 de março de 2010 | 18h53

Audrey Hepburn: Ela tinha alguma coisa... além da beleza, claro

Audrey Hepburn: Ela tinha alguma coisa... além da beleza, claro

Nas primeiras cenas de ‘Quando Paris Alucina’ (Paris When it Sizzles, filme dirigido por Richard Quine), acompanhamos a jovem secretária Gabrielle Simpson chegando ao apartamento de Rick Benson, escritor boêmio e mulherengo interpretado por William Holden.

O clima é leve e o filme parece apenas mais uma inofensiva comédia romântica do longínquo ano de 1964. Isso até que a câmera dá um close-up em Gaby e a tela se enche com o brilhante e mágico sorriso de Audrey Hepburn. E daí não dá mais para mudar de canal.

O que será que essa atriz tinha de diferente? Por que nossos olhos ficam magneticamente presos à tela quando ela aparece, mesmo em um filme feito há mais de 40 anos? Por que a câmera parece estar tão apaixonada por ela quanto nós?

Segundo a Wikipedia, ‘carisma’ pode significar tanto ‘graça divina’ (latim) como ‘favor, benefício’ (grego). Segundo a Igreja Católica, é o ‘dom especial do Espírito, concedido a alguém para o bem dos homens, para as necessidades do mundo e, em particular, para a edificação da Igreja’. Uau.

Há ainda a interpretação psicanalítica de Carl Jung, segundo a qual o carisma é uma das qualidades da personalidade de estilo Maná, que ‘marca o nascimento da personalidade, um profundo passo individual à frente’. Não sei quem está certo, só sei de uma coisa: Audrey Hepburn era uma mulher de carisma. Muito carisma.

Audrey (olha a intimidade) não foi a mulher mais bonita do mundo. Mesmo entre as estrelas da época, aposto que muitos homens preferiam as curvas de Brigitte Bardot ou os olhos verdes de Elizabeth Taylor.
Mas Audrey tinha aquele algo a mais – sua aura. Havia um círculo de luz em volta de seu rosto, que
nos fazia querer estar perto dela, nem que fosse virtualmente. Sua personalidade provocava um desejo terno, uma vontade de vê-la feliz. É isso: acho que eu (e milhões de homens) queríamos ter feito Audrey feliz.

Aura é uma coisa muito subjetiva, e talvez nem seja possível traduzir isso em palavras. Mas qualquer pessoa
sensível sabe quando um artista tem ou não tem aura, se ele é real ou artificialmente inventado. Nem precisa ser tão sensível: nessa época pós-pós-pós-modernista, há celebridades que duram, mesmo,
só 15 minutos, como previu Andy Warhol. E há pessoas que fazem esses 15 minutos durarem muito mais tempo.

Não sei como isso afeta a vida sentimental dessas pessoas e desses artistas. Tenho certeza de que a aura não aparece no espelho, assim como tenho certeza de que elas sabem o poder que têm. Se você sabe do que eu estou falando, espero que você use esse poder para o bem.

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