O mundo da moda perdeu a cor

Estadão

02 de junho de 2008 | 16h31

YSL

Como não sou o maior expert do mundo em moda e conheço muito bem minhas limitações, mais uma vez aproveito meus privilégios genéticos para recorrer aos conhecimentos jornalísticos-fashionistas de Helô Machado.

Aqui vai o emocionante texto da especialista sobre a morte do estilista Yves Saint-Laurent, que faleceu ontem aos 71 anos, vítima de um câncer.

O mundo da moda perdeu a cor
Helô Machado

Mais que um mestre da Alta Costura do século XX, ao lado de Christian Dior, Chanel, Balenciaga e Pierre Cardin, Yves Saint-Laurent foi também o maior romântico da moda de todos os tempos. Como poucos, soube seduzir os homens através de suas criações femininas, com combinações de cores absolutamente inusitadas.

“As roupas mais bonitas para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama”, costumava dizer YSL. “Para as que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui.” E ele esteve aí por 40 anos e mais de 70 coleções, sofisticado e criativo, oferecendo para todas – amadas ou não – a sua visão estética do mundo, através de modelos de inspiração única. Seu olhar pelas ruas de Paris trazia para o seu atelier novas idéias, que se transformavam na essência de sua próxima coleção. Mais aguçado ainda, passeou pela Rússia, que lhe valeu uma série de camponesas, que arrebataram mulheres do mundo inteiro com suas saias rodadas, blusas finas de mangas bufantes, corpetes justos, botas, colares, colares, colares, brincos imensos, pulseiras mil.

O Oriente e a África, em especial o Marrocos – onde ele mantinha uma casa maravilhosa nos arredores de Marrakesh – também não escaparam do atento olhar do artista, que coloriram, estamparam e bordaram suas coleções étnicas nas passarelas de seus desfiles majestosos. Tive o privilégio de assistir a duas de suas magníficas apresentações em Paris nessa época. Mais que isso, tive o prazer de conhecê-lo no início dos anos 80. E de tremer diante dele. Graças a uma grande amiga de sempre, Rose Benedetti.

Durante muitos anos, Rose teve a licença exclusiva das bijuterias St. Laurent no Brasil. A cada coleção enviada pelo estilista, ela reproduzia peça por peça e encaminhava um ‘tabuleiro’ repleto de modelos para aprovação do criador.

Fui portadora de uma dessas coleções. E em uma manhã fria de abril, me encaminhei para o número 5, da Avenue Marceau, com a importante encomenda. Depois de me identificar, aguardei uns 10 minutos na ante-sala. A porta se abriu e ele apareceu. Num segundo, me lembrei de todas as matérias que já escrevera sobre ele e sua moda linda. Parecia um sonho. Meu grande ídolo Yves Saint-Laurent, lui-même, de terno bege, camisa bege, gravata preta (uma de suas combinações preferidas) estava diante de mim, naquela manhã cinzenta de Paris.

Muito simpático, ele agradeceu os meus comentários sobre o seu desfile, realizado dois dias antes e me fez perguntas sobre o Brasil. Antes de sair, ele elogiou meu colar – YSL by Rose Benedetti – e disse que Opium, o seu perfume que eu usava no dia, combinava muito com a minha personalidade.

Este momento foi tão marcante na minha vida que ainda me lembro de ter feito uma pequena reverência na despedida: ‘Merci, monsieur. A bientôt!’
Mesmo já tendo passado por inúmeros outros perfumes, sempre mantenho um vidro de Opium por perto. Afinal, todo mundo há de concordar: perfume é tão marcante que sempre traz lembranças. Quem não se recorda de um grande momento ao sentir os perfumes de Saint-Laurent: Rive Gauche, Paris, Y, Champagne, Cinema, Jazz, Kouros, Yvresse, I Love Again e tantos outros, criados ao longo de 40 anos, quando, recém-saído da Maison Dior, abriu a Rive Gauche e entrou para a história da moda.

As iniciais YSL entrelaçadas são facilmente identificáveis e irresistíveis. Lembram perfume, batom, bolsas, malas, meias, cintos, ternos, camisas masculinas, gravatas, bijuterias imensas e um arco-íris próprio, recriado à maneira de Saint-Laurent, com combinações extremas: roxo e vermelho; amarelo e fúcsia; preto e bege; verde e azul. Ou a ausência total de cor e de detalhes: o seu vestido preto de coquetel, que se tornou um símbolo de quem quer estar chiquérrima: o pretinho. Sim, é ele também o criador do pretinho elegante de que tanto se fala.

Se Chanel deu liberdade às mulheres, Yves Saint-Laurent deu o poder, através de um smoking tipicamente masculino, repleto de feminilidade. E, para aumentar ainda mais a praticidade da vida, ele também tornou chique as duas peças: para as grandes noitadas ou para o dia-a-dia, o que permitiria uma maior variação de roupas, uma diversificação ‘na produção’ de cada mulher.

Depois de vender sua marca – roupas e cosméticos para a Gucci em 2002 – segundo seu melhor amigo e sócio Pierre Bergé, Yves Saint-Laurent, doente e melancólico, ainda reunia forças para passear com seu motorista pelas ruas de Paris, para observar as mulheres. As mulheres a quem tanto amou. A quem se dedicou de corpo e alma. Para sempre.

Foto: Bruno Pellerin/EFE (18/11/1995)

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