O mundo anda muito intolerante

Estadão

30 de setembro de 2009 | 19h50

Um dia de fúria


Em ‘Um Dia de Fúria’, o personagem de Michael Douglas fica tão estressado que acaba perdendo a paciência… e a razão

Outro dia falei aqui sobre a nova lei antifumo e como ela provocou um conflito entre fumantes e não-fumantes. Confito é pouco: tenho visto verdadeiras discussões sobre o assunto. De um lado, os fumantes reclamam do preconceito; do outro, os não-fumantes passaram a perseguir os viciados em cigarro.

Na minha opinião, a lei só chamou a atenção para uma característica cada vez mais presente da nossa sociedade: a intolerância. É triste ver que pouco mudou desde 1916, quando esse sentimento batizou o clásico filme de D.W. Griffith.

A verdade é que não aceitamos o diferente. É capaz de não aceitarmos nem o igual, se ele estiver junto com o diferente. Mas o pior de tudo é que não aguentamos o outro, diferente ou igual.

Quando se pensa em intolerância, lembramos logo dos atentados no Oriente Médio ou dos americanos que entram em escolas e disparam contra todo mundo. Geralmente pensamos: ‘nossa, que absurdo’. Sim, são absurdos. Mas também é absurda a cena que presenciei na última quinta-feira, quando eu e uns amigos estávamos em um restaurante na Vila Madalena.

Chegamos à conclusão de estávamos diante de um resumo do comportamento atual da humanidade, e não apenas de um retrato da metrópole estressada: dois carros, dois motoristas idiotas. Um deles reduziu a velocidade e parou o carro porque tinha achado uma vaga; ele queria fazer uma baliza e estacionar. O outro, que vinha logo atrás, queria ultrapassá-lo naquele exato momento. Enquanto o primeiro tentava dar a ré, o outro acelerava de soquinhos e buzinava incessantemente. Cada um deles queria resolver imediatamente o seu problema, sem pensar no outro, totalmente desprovidos de bom senso. E daí os dois ficaram parados ali, no meio da rua, paralisados pelo impasse.

Mês passado comemorou-se os 40 anos do Festival de Woodstock. Não estou sugerindo que o ideal é viver como hippies, à base de drogas e rock and roll. Mas será que a humanidade não aprendeu nada com esse movimento? Será que estou viajando muito ao acreditar que é possível viver pelo menos um pouquinho à base de paz e amor?

Talvez eu esteja sendo ingênuo, mas acho que respeito é, sim, uma mercadoria em falta no mercado. Sei que somos primatas e em algum momento os instintos primitivos aparecem. Eu também fico nervoso e faço besteiras, como todo mundo. Mas será que não dá para respirar fundo e agir como um ser humano de vez em quando? Prometo que vou tentar. Gostaria que você tentasse também.

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