O melhor presente do mundo

Estadão

24 de dezembro de 2006 | 15h37

Isabel

Realizei o sonho de qualquer criança: ganhei exatamente o presente que eu queria – e uma semana antes do Natal. Quem me trouxe o presente não foi o Papai Noel, foi a cegonha: pesa três quilos, tem 49 centímetros e emite sons incríveis que eu nunca ouvi antes. Meu presente se chama Isabel e é minha primeira filha.

Nunca vou esquecer meu nervosismo antes de entrar na sala de cirurgia. Quando a enfermeira me entregou aquele uniforme azul e começou a explicar “o senhor pode se vestir ali no vestiário…”, nem esperei ela acabar de falar: tirei a roupa ali mesmo. “Sei que o senhor está ansioso, mas pode esperar eu sair”, ela disse. Eu, de calças na mão, me senti ridículo. Ainda bem que ela não pediu para eu me jogar da janela.

Durante a operação, até fiquei orgulhoso de mim mesmo: consegui assistir ao parto sem desmaiar. Talvez eu tenha sido protegido pela enxurrada de lágrimas que insistia em cair dos meus olhos.

O que me deixou mais impressionado durante o parto, no entanto, não foi ver a operação ou o sangue, mas ver que de dentro da pessoa que eu mais amo no mundo os médicos arrancaram outra, que eu passei imediatamente a amar ainda mais. Não apenas mais amor em quantidade, mas um tipo de amor diferente, totalmente novo, inexplicável. E o mais intenso que alguém pode sentir.

Quando minha filha abriu os olhos, compreendi o que é ser pai: ao mesmo tempo em que ela é a coisa mais ‘minha’ que já existiu até hoje, é a menos ‘minha’ também. Deu para entender? Desde o momento em que ela nasceu, a única razão da minha existência é prepará-la para me abandonar. Isso não faz o menor sentido. Mas quem disse que a vida faz sentido?

Se meu avô estivesse vivo, brincaria: “Dizem que todo bebê nasce com cara de joelho… então ela é o joelhinho mais lindo do mundo”. Pena que meus avós não estão mais por aqui.

Meus pais estão por aqui, graças a Deus. Mas no dia em que a Isabel nasceu, deixei de ser filho. Agora eu sou pai. E apesar de ser um pai bastante recente, já aprendi que a vida se divide em duas partes: a vida que se aprende e a vida que se ensina.

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