O dia em que vi Yoko Ono pessoalmente

Estadão

07 de novembro de 2007 | 17h05

yoko

Hoje eu vi Yoko Ono em pessoa. Para quem é Beatlemaníaco como eu, foi quase um sonho. Não sou daqueles que culpa Yoko pelo fim dos Beatles. Acho que quem diz isso nivela por baixo uma questão muito mais complexa: os Beatles eram muito famosos, muito geniais, muito sagrados… e muito jovens. Uma hora eles cresceram, as diferenças entre eles vieram à tona… E aí cada um se viu grande demais para ser parte de um grupo.

Voltando a Yoko: ela é, antes de tudo, uma mulher fascinante. Não vou chegar ao cúmulo de dizer que Yoko é bonita, até porque ela sempre foi uma mulher muito feia, desde que era jovem. Mas Yoko é, sim, interessante, mesmo aos 74 anos.

Não se pode olhar para Yoko sem pensar em John Lennon. Talvez tenha sido por isso que algumas lágrimas apareceram nos meus olhos quando ela apareceu na sala da coletiva. Olhei para aquela pequena mulher de pé ali e pensei: “Estou na mesma sala que Yoko Ono. Estou respirando o mesmo ar que Yoko Ono. Aquela ali na minha frente é Yoko Ono.”

Sei que quem não é fã dos Beatles vai dizer: ‘e daí?’ Para esses, realmente não tenho nada a dizer. Nada vai mudar a percepção deles de que Yoko é uma japonesa maluca que gravava discos gritando, tirava fotos pelada e ainda foi a responsável por afastar Lennon dos outros Beatles.

Para quem pensa como eu, no entanto, estar frente a frente com Yoko é uma espécie de sonho. Tudo bem, dizem que Sean e Julian Lennon tem o sangue de John, que são figuras mais importantes porque são filhos dele. Mas era Yoko quem estava ali, no meio do furacão, nas performances pedindo paz na cama (os famosos ‘Bed-Ins’), na pressão pela expulsão de John dos Estados Unidos, no estúdio durante as últimas gravações dos Beatles. Era ela quem estava durante a sessão do ‘Álbum Branco’, do ‘Abbey Road’, do ‘Let it Be’. Ela era A mulher.

Hoje consigo ver um outro lado. Vejo que Yoko é uma importante artista plástica de vanguarda, ultra-criativa e integrante de um movimento de arte conceitual (Fluxus) que surgiu em Nova York e influenciou o universo das artes plásticas nos anos 60. Yoko também foi pioneira no conceito de arte interativa: algumas obras nem existem em termos do objeto de arte em si, mas apenas na idéia, o que é altamente revolucionário e subversivo. Em 1960, Yoko já fazia performances artísticas, vídeos experimentais e instalações, o que só veio a ‘virar moda’ no mundo das artes bem mais tarde.

Yoko tem, sim, obras geniais, e isso não é papo de Beatlemaníaco. Com que palavra você descreveria uma escultura que simula um jogo de xadrez em que todas as peças são brancas e acima do tabuleiro vem a inscrição: ‘jogue com confiança’? Eu achei maravilhoso. E sua obra mais famosa também está no Brasil (a exposição ‘Yoko Ono: Uma Retrospectiva’ está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro de SP, até 3 de fevereiro). Trata-se de uma escada branca onde, no último degrau, pendurado no teto, está presa por um barbante uma lente de aumento. Aí você sobe na escada e vê de perto o que está escrito lá em cima, em letras bem pequenininhas: “YES”. Não é lindo? Não é superpositivo? Não é uma mensagem de paz super original e interessante? Foi graças a esta obra que John se interessou por Yoko. Ele havia sido o patrono de uma exposição de vários nomes em Londres e, após ver esta peça, pediu para conhecer a artista. O resto é história.

Hoje eu olhei para essas obras de arte e lembrei de John. Por que ele amou tanto aquela artista completamente maluquinha de voz fina e 1,50m de altura? Para um homem como Lennon se apaixonar tão perdidamente é porque devia haver alguma razão muito forte. Eu arriscaria dizer, como homem, que John se apaixonou pelo talento e pela beleza interior de Yoko. E isso ela tem de sobra.

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