O colecionador e o oriental

Estadão

23 Maio 2007 | 18h59

Terminei de ler na semana passada dois livros que não têm nada a ver entre si e, no entanto… têm. ‘Utz’, (103 págs., do autor britânico Bruce Chatwin), e ‘Em Louvor da Sombra’, (67 págs., do japonês Junichiro Tanizaki). O que eles têm em comum? São duas pequenas jóias literárias que abordam um mundo que não existe mais.

‘Utz’ conta a história de Kaspar Utz, um homem que suporta a opressão do regime soviético em Praga, Tchecoslováquia, no pós-Segunda Guerra apenas porque não pode retirar sua valiosíssima coleção de porcelanas do país. ‘Pô, Felipe, mas vou perder meu tempo lendo um livro sobre porcelanas?’, alguém pode perguntar. A resposta é que Utz é louco por porcelanas tradicionais Messien, mas sua coleção poderia ser composta por metralhadoras Uzi ou carrinhos de ferro Matchbox. Não interessam aqui, os objetos de seu desejo. O livro é mais sobre a obsessão do personagem por coleções, pelo mundo à parte que compõe sua mania. A coleção de Utz, para ele, é feita de figuras vivas, mais reais do que praticamente todo o resto de sua vazia existência.

Bruce Chatwin, infelizmente morto em 1989, tinha um estilo de texto enxuto e contemporâneo; suas frases sobre o papel têm a elegância de um mestre das artes plásticas espalhando tinta a óleo sobre uma tela.

Já no livro ‘Em Louvor da Sombra’, de 1933, Tanizaki fala sobre a diferença entre a cultura japonesa e a ocidental de uma maneira muito particular e original. Ele defende que os orientais culturalmente privilegiam a sombra, enquanto o Ocidente valoriza as cores vivas e a iluminação mais intensa possível. Na época em que o livro foi escrito, a tecnologia desenvolvida no Ocidente (luz elétrica, ventiladores e aquecimento) começava a se tornar popular no Japão. O autor elabora teorias sobre como seria o Oriente sem a influência ocidental, ou como essas invenções seriam diferentes se tivessem sido criadas de acordo com a ‘visão oriental’ do mundo.

Tanizaki escreve de maneira fácil, divertida e até mesmo ingênua. O livro acaba sendo lido com um sorriso nos lábios, onde a abordagem poética do assunto recria um mundo que desapareceu há décadas. “A beleza inexiste na própria matéria, ela é apenas um jogo de sombras e de claro-escuro surgido entre as matérias”, defende o escritor.

Bom, fica a dica. Não são best-sellers, mas garanto que são duas leituras bem agradáveis e perfeitas para se devorar de uma vez só.