O cigarro virou fumaça

Estadão

20 de agosto de 2009 | 11h17

Rita Hayworth é Gilda
Rita Hayworth: Nunca haverá outra mulher como Gilda. Até porque já é praticamente proibido fumar em Hollywood

No último sábado aconteceu uma coisa inédita: saí à noite em São Paulo e não cheguei em casa cheirando como se eu tivesse mergulhado de cabeça em um cinzeiro gigante.

A radical lei antifumo influenciou tanto a vida das pessoas que virou assunto em todas as rodinhas da cidade (só para constar, até o fechamento desta edição ainda não havia nenhuma lei que proibisse as rodinhas). Como a polêmica tem forçado todo mundo a tomar uma posição, aqui vai a minha: sou a favor da lei.

Não sou a favor apenas porque não fumo, embora esta já seja uma razão mais do que suficiente. Sou a favor porque um mundo sem cigarros é um mundo mais saudável, mais cheiroso, mais agradável. Mas quem fuma não precisa parar de ler este texto, porque não pretendo fazer apologia da lei. Não sou um fumochato (versão esfumaçada do ‘ecochato’), até continuo mantendo relações (de longe, claro) com quem fuma. E ainda acho melhor dividir a mesa com um fumante do que com um político, por exemplo – pelo menos não há risco de a minha carteira desaparecer do meu bolso.

Acho chato que a lei tenha aumentado o clima de confronto entre fumantes e não-fumantes, como se fumar fosse crime. Dá para acreditar que há até disque-denúncia? Fumar não é crime. É vício, coitados. Quem diz que pode parar a qualquer hora não é fumante. É mentiroso.

Compaixões à parte, também acho meio agressiva a postura que os fumantes andam adotando. Teve gente que comparou a nova lei aos campos de concentração na Alemanha nazista. Menos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diria a filosofia chinesa (a filosofia chinesa diz isso? Duvido). Os fumantes só precisam entender que quem fuma incomoda os outros, e não o contrário. Mas quem não fuma também tem que entender que não se muda um hábito assim, à força, de uma hora para a outra. Vamos com calma, como diria o fumante passivo, quer dizer, pacífico.

Veja pelo lado bom: dizer que ‘vai sair para fumar um cigarro’ na balada pode ser muito útil na hora de dispensar alguém. E quando o cara sair lá fora para fumar, antes de congelar ele pode voltar a usar o velho ‘você vem sempre aqui?’ sem medo de soar ridículo. Finalmente, essa proibição toda pode trazer de volta algo delicioso que talvez os fumantes nem se lembrem
mais: beijos sem gosto de cigarro. De qualquer maneira, temos de manter o bom senso e não radicalizar de nenhum dos dois lados. Fumantes e não-fumantes podem conviver em paz e harmonia. Desde que seja ao ar livre, claro.

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