O casal-nada

Estadão

03 de dezembro de 2007 | 10h58

Você já deve ter ouvido falar do ‘casal-neuras’ e do ‘casal-20’, mas aposto que você nunca ouviu comentários sobre um casal tão discreto que costuma passar despercebido: o ‘casal-nada’.

O casal-nada entra no restaurante torcendo para a conta chegar logo e eles poderem ir embora para fazer nada em casa. Como não têm muito a dizer um ao outro (nada, na verdade), costumam pedir a sobremesa antes mesmo das bebidas chegarem. Quando vão a um restaurante japonês, sentam-se no balcão por duas razões: para não precisarem olhar um para o outro e para poder puxar papo com o sushiman. Às vezes, dão azar e encontram um sushiman japonês: inevitavelmente o jantar termina ainda mais rápido.

O casal-nada adora viajar, mas passa o tempo todo tirando fotos que nunca serão vistas por ninguém – nem por eles mesmos. Alguns têm filhos, outros não, mas isso não importa: a falta de assunto é sempre a mesma.

Por que o casal-nada se casou? Nem eles sabem. Saíram uma noite com os colegas da faculdade e alguém brincou que os dois tinham coisas em comum: eram inteligentes, não falavam muito, tinham poucos amigos. Eles concordaram e começaram a namorar. Namoraram, namoraram, de repente a mãe dela sugeriu que estava na hora de eles se casarem. Eles também concordaram. E foi isso.

Os dois não são apaixonados um pelo outro, mas também não se odeiam. Na verdade, não sentem nada não apenas um pelo outro, mas por nada de que se lembrem. Ele gostava de futebol, mas ela odiava e ele abandonou. Ela pensou em pintar uns quadros para vender aos amigos, mas ele achava que aquilo fazia muita bagunça.

Os dois abandonaram seus sonhos, mas em troca de quê? Agora, sentados em silêncio no restaurante mais caro da cidade, pensam na vida que não tiveram e que poderiam ter tido. O silêncio incomoda mais que uma orquestra tocando dentro de seus ouvidos, mas eles não se importam. Há muito tempo não se importam com nada. Talvez seja por isso que se tornaram… um casal-nada.

Se você conhece um casal assim, convide-os para sair. Puxe papo. Ligue de vez em quando. Na terra do casal-nada, ter amigos é tudo.

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