Ninguém é invisível

Estadão

20 de dezembro de 2010 | 12h34

‘Papai, você é muito brilhoso.’
‘Brilhoso? Mas o que é brilhoso, minha filha?’
‘Ah, papai… brilhoso é quando é muito lindo.’

Toda vez que minha filha diz alguma coisa assim meus olhos se enchem d’água e eu agradeço aos céus por ter a criança mais linda do mundo como filha. Não sei se é só comigo, mas a intensidade desse amor por ela – e pelo resto da minha família – fica muito mais forte no fim de ano. Ainda mais nessa semana de Natal.

É claro que tudo conspira para isso: as árvores cheias de luzinhas brancas, as campanhas publicitárias emocionantes, a perspectiva metafórica de recomeço que o ano novo traz.

É uma época que traz muita alegria, mas também um quê de melancolia. Começamos a lembrar de quem não está mais com a gente; imaginamos como seria bom se toda a família estivesse reunida – todos mesmo – para celebrar o fim de ano.

Não se preocupe, é assim com todo mundo. As famílias nunca estão completas, até porque estar completa não é uma característica possível a uma família.

Famílias são incompletas por natureza. Há sempre alguém partindo e alguém chegando; essa é a própria definição de uma família. Não somos estáticos, mas dinâmicos – ou melhor, dinamicamente familiares. Famílias são obrigadas a andar para frente, como entidades ambíguas que mantêm o cérebro no futuro e o coração no passado.

Se você é daqueles que amam o Natal, aproveite. Se você não gosta muito dessa época… relaxe, ela passa rápido. Não pense em nada negativo, nada que possa derrubar sua emoção. Pense naqueles que se foram com carinho, porque é isso que eles gostariam que você pensasse se ainda estivessem entre nós. É o que eu faço. Acredite, funciona.

Costumo pensar também nas amizades ao meu redor, nos colegas de trabalho, nas pessoas com quem convivemos o ano inteiro e que só lembramos que existem quando alguém os menciona. A mocinha que serve café no escritório, o simpático faxineiro do prédio, o cara que cuida do estacionamento. Essas pessoas, de certa forma invisíveis em meio ao caos da cidade, estão mais presentes em sua vida do que você jamais imaginou. São personagens fixos no enredo do seu dia a dia. Lembre-se que não há ontem ou amanhã: vivemos sempre no hoje. E, portanto, no dia a dia.

Um beijo para os seus filhos, se você tiver algum. Um beijo para seus pais, se eles estiverem por aqui. Um beijo para você, que se considera uma pessoa sozinha. Você não é. Estamos todos aqui, juntos, convivendo nesse infinito dia a dia.

Feliz Natal.

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