Ninguém é invencível

Estadão

03 de agosto de 2008 | 16h16

(Luzes piscando numa pista de dança, música eletrônica no último volume.)

Se tem uma coisa que a gente aprende com o tempo é que ninguém é invencível. Não preciso de bola de cristal para garantir que você, que hoje lê este texto alegremente, será daqui a algumas décadas apenas uma foto esquecida num porta-retrato dos netos de seus netos. Mas a humanidade não costuma ter humildade para admitir sua vulnerabilidade tão óbvia: lutamos com todas as forças para superar o passado; transformamos em heróis quem vence os próprios limites; vivemos cada vez mais obcecados pela vaidosa juventude.

Uma hora, porém, a vida cobra seu preço.

Um grande amigo nos deixou na semana passada. Foi uma morte tão rápida quanto inesperada. Ninguém pode dizer que ele não viveu a vida intensamente, pelo contrário. Foi até mais intensa do que era necessário. E foi justamente isso que o levou.

Não há nada mais triste do que um velório de um cara de 33 anos. Pais, irmãos e amigos parecem não entender o que está acontecendo, não compreendem que quem está ali não é mais o cara que eles tanto amavam, mas apenas um corpo jovem sem vida, descansando numa caixa de madeira. “Onde está a música?”, teria perguntado esse jovem, se seus lábios se movessem pelo menos mais uma vez. Mas isso não vai acontecer. Nunca mais haverá música, nem luzes, nem a festa aparentemente infinita em que a sua vida havia se transformado.

Os amigos não entendem como alguém tão alegre pode, de uma hora para outra, provocar tanta tristeza. Não combina. Não bate. A balada verdadeira deve estar acontecendo em outro lugar. Essa despedida é apenas a versão em preto e branco de uma vida incrivelmente colorida.

De tudo, porém, se aprende. E as boas lições são assim, duras de aprender, fundamentais para fazer crescer. Sem querer, nosso amigo nos ensinou que a vida é um sonho possível, perigosamente possível. Como aconteceu com Ícaro, quem voa muito alto pode queimar as asas no sol.

Até mais, Márcio.

(As luzes da pista se apagam e a música diminui, aos poucos, até o silêncio.)

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