Música brasileira nas alturas

Estadão

13 de maio de 2008 | 10h18

ceu

Foto: Rafael Jacinto/Div.

Embora seja difícil, prometo não fazer nenhum trocadilho com o nome dela: eu já tinha ouvido falar bastante da cantora Céu, mas só consegui ver um show dela no último dia 4, no evento Grandes Encontros, promovido pela Rádio Eldorado no Shopping Anália Franco.

(Veja vídeos do show aqui e uma entrevista de Céu com o jornalista Jotabê Medeiros aqui)

Fiquei bastante impressionado, principalmente porque não sou o maior fã de MPB do mundo. A Céu representa uma vertente da música brasileira que pode até ter influência dos nomes mais tradicionais como Gil e Caetano, sim, mas ela incorpora toques modernos (ai, que medo dessa palavra) que criam um estilo próprio, bastante original. Ainda bem.

Não, não estou falando de misturar música brasileira com aquelas batidas irritantes de drum ‘n’ bass, coisa que a Fernanda Porto abusou tanto que encheu a paciência de todos nós. Céu usa loops eletrônicos de maneira mais sutil, com parcimônia e bom gosto. O resultado é que isso cria um clima e uma sonoridade mais atuais, algo que eu poderia chamar de MCB, Música Cosmopolita Brasileira. Talvez seja por isso que Céu faz sucesso nos Estados Unidos, o que a levou a ter o disco lançado lá pela gravadora da rede de cafés Starbucks.

Temos que ser honestos, e mencionar que o charme pessoal de Céu também contribui com sua performance. Ela não faz caras e bocas, nem tem as pernas das nossas divas ultra-alegres do axé, muito menos aquela afetação das cantoras de vozes, digamos… mais grossas. Grávida de seis meses, sambando como paulista (sem tirar os pés do chão), essa garota típica da Vila Madalena é o que costuma se chamar em inglês de ‘girl next door’, uma garota comum, aquela vizinha simpática e bonita que você torce para encontrar no elevador do prédio.

A voz de Céu não é daquelas que impressionam, até porque no dia desse show ela estava meio resfriada. Mas é uma voz legal, gostosa, que combina bem com os arranjos e com o som de sua banda. (Só achei que falta um guitarrista, mas isso é opinião de… um guitarrista, claro.) Céu não é exagerada; ela canta para a música, não para se exibir. O repertório é simples, mas não simplista. E bem escolhido: Céu canta ‘Ronco da Cuíca’, de João Bosco e Aldir Blanc, e ‘Concrete Jungle’, de Bob Marley, com a mesma paixão. Isso também mostra que para fazer música brasileira não é preciso tocar a meia dúzia de clichês do samba, como muita gente mala acha.

Não interessa o que vão dizer: para mim, o som de Céu, com DJs, loops e samplers, é tão brasileiro quanto uma turma de índios cantando em volta da fogueira. Ser um artista contemporâneo, brasileiro ou chinês, significa usar o que o mundo tem de melhor, e misturar isso com o que VOCÊ tem de melhor. Fronteiras foram feitas para serem apagadas, principalmente na música. Ainda bem.

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