Morte magnética: O disco novo do Metallica

Estadão

29 de setembro de 2008 | 14h13

Mario Anzuoni/Reuters

O Metallica é provavelmente a banda que mais ouvi na vida. Claro que a maioria dessas audições foi feita quando eu era mais novo, mas confesso que de vez em quando ainda me pego ouvindo ‘Master of Puppets’ no som do carro no volume 10. E acho maravilhoso.

Se existe uma banda que não tem medo de ousar, essa banda é o Metallica. Para usar uma expressão bastante clichê no meio musical, eu diria que eles são ‘os Beatles’ do heavy metal: fazem uma revolução de estilo a cada disco, esbanjam criatividade e evoluem até mesmo quando erram a mão.

Eles praticamente inventaram o thrash metal, estilo mais pesado com guitarras superdistorcidas e bateria rápida e mortal que teve início na Califórnia nos anos 80. Quando o thrash surgiu, as quatro bandas ‘grandes’ do estilo eram Anthrax, Slayer, Metallica e Megadeth. Mas com o megasucesso do disco ‘Metallica’, também conhecido como ‘álbum preto’, a banda de James Hetfield (vocal e guitarra), Kirk Hammett (guitarra) e Lars Ulrich (bateria) deixou os outros headbangers comendo poeira.

Resumo da história: eles lançaram discos pesadões, enfrentaram a morte de um integrante (o baixista Cliff Burton), gravaram discos de hard rock, fizeram parceria com Marianne Faithful, regravaram covers de artistas tão variados como Mercyful Fate e Misfits, cortaram os cabelos, tocaram literalmente em palcos do mundo inteiro – até em um presídio -, gravaram com uma orquestra sinfônica, lançaram o documentário mais realista da história do rock (‘Some Kind of Monster’), assistiram ao líder da banda ser internado numa clínica de reabilitação… e sobreviveram.

Estou falando hoje sobre o Metallica porque a banda acaba de lançar um disco novo, o sensacional ‘Death Magnetic’. O disco já foi lançado no Brasil há alguns dias, mas confesso que não ainda não tinha escrito nenhuma linha sobre ele simplesmente porque não tinha conseguido tirar o disco do carro e trazê-lo para a redação, para poder escrever com calma. Toda vez que eu ia tirar o disco do carro, começava uma música nova e ele acabava ficando ali no CD player mais um pouquinho.

Imagine um caminhão cheio de explosivos sem freios descendo uma ladeira em alta velocidade. Agora imagine esse caminhão se chocando com uma usina nuclear. É mais ou menos a sensação que você terá ao ouvir ‘Death Magnetic’ pela primeira vez.

Depois do ‘álbum preto’ (1991), o Metallica caiu de produção consideravelmente, e fez os piores discos de sua carreira (que, mesmo assim, tinham coisas bem legais). Vieram ‘Load’ (1996), ‘Reload’ (1997), ‘S&M’ (ao vivo, 1999) e ‘St. Anger’ (2003). Ou seja, a banda ficou mais de dez anos sem lançar um disco incrível – o que eles definitivamente corrigiram com ‘Death Magnetic’.

O disco é produzido pelo famoso Rick Rubin, gordinho barbudão especialista pela versatilidade e por dar uma levantada na carreira de veteranos que perderam a mão. O cara é um dos maiores produtores da história do rock, o que é possível comprovar pela variedade de artistas com quem ele trabalhou: Red Hot Chili Peppers, Linkin Park, Shakira, Johnny Cash, Slayer, U2, Rage Against the Machine, System of a Down, Tom Petty, The Cult, Beastie Boys, Jay Z, Run DMC, AC/DC, Audioslave, Bob Dylan… (está bom ou quer mais?)

‘Death Magnetic’ tem alguns dos melhores riffs de toda a história do Metallica – e olha que de riff os caras entendem. ‘That Was Just Your Life’, que abre o disco, é um rock and roll tocado por uma banda de demônios; ‘The End of the Line’ e ‘Broken, Beat & Scarred’ seguem na mesma linha, enquanto ‘The Day That Never Comes’ tem uma introduçãozinha mais tranqüila – mas que depois fica pesadona.

(Veja o vídeo no link abaixo.)

‘All Nightmare Long’, ‘Cyanide’ e ‘Judas Kiss’ são perfeitos exemplos de como o Metallica se reinventou: elas têm trechos que nos remetem aos primeiros discos, como ‘Kill’em All’ (1983) e ‘Ride the Lightning’ (1984), mas com a complexidade das canções do ‘And Justice for All’ (1988). Ou seja: peso, técnica, energia, velocidade. ‘Unforgiven III’, mais na boa, é uma das minhas favoritas: ela dá um banho na ‘Unforgiven II’, do ‘Reload’. ‘Suicide & Redemption’ foi a única que achei meio chatinha: será que o mundo precisa de uma música instrumental de heavy metal com 10 minutos de duração? (Resposta: Não, não precisa. As músicas do disco, de uma maneira geral, são um pouco compridas demais). O disco fecha com ‘My Apocalypse’, uma porrada que me lembrou muito ‘Damage Inc.’, do disco Master of Puppets. Mas pelo menos é um autoplágio, né? Eles nunca copiaram ninguém e não será agora que vão copiar.

Adorei ‘Death Magnetic’, mas aconselho você a ouvir o disco apenas se já gosta de heavy metal. Do contrário, vai ficar com dor de ouvido. E de cabeça.

Posso contar três histórias engraçadas sobre o Metallica?

1. Quando a banda esteve no Brasil pela primeira vez, em 1989, um amigo meu ficou encarregado de levar o vocalista James Hetfield para uma tarde de autógrafos na loja Woodstock, antigo ponto de encontro dos headbangers paulistanos, bem no centro da cidade. Lá foram os três no carrinho Uno do meu amigo… quando chegaram perto da Woodstock, uma multidão se espremia na frente da loja. Quando descobriram que o James estava no carro, foi um desespero: queriam virar o carro, tirar o cara de dentro. “Acho que é melhor a gente ir embora”, disse o James. Meu amigo concordou.

2. Minha banda, o Viper, abriu dois shows da turnê do Metallica na turnê do ‘álbum preto’, em 1993. Foi sensacional tocar no estádio do Palmeiras para 30 mil pessoas por noite. Antes do show, fomos conhecer os caras do Metallica, que nos trataram superbem. Ficamos conversando um pouco, ganhamos umas camisetas e ainda combinamos de nos encontrar na Europa, já que o Metallica tocaria nos principais festivais europeus e o Viper embarcaria para mais uma turnê européia. Na hora de sair do camarim, eles nos abraçaram e disseram “nos vemos na Europa”. Claro que nunca nos encontramos na Europa, porque o nível de shows que eles iam fazer era obviamente muito diferente do nosso esquema. Mas combinar esse encontro, mesmo que tenha sido só educação por parte deles, foi um dos pontos altos da minha vida. Thanks, James.

3. Quando estávamos no camarim, também fiz questão de presentear o baixista Jason Newsted com uma camiseta do Viper superlegal, pintada à mão e tal. Eu tinha ouvido falar que o Jason costumava dar força para as bandas de abertura, então eu tinha esperança de que ele tocasse com a camiseta do Viper – seria uma honra e uma propaganda maior ainda. Bom, ele não tocou. No mês seguinte, o Viper foi tocar na Argentina e uma garota na platéia estava usando exatamente a camiseta que eu dei para o Jason! Pedi para um roadie convidar a garota para ir ao camarim depois do show porque queria saber como ela tinha conseguido a camiseta. Descobri que Jason deu a camiseta para um roadie, que ‘conheceu’ essa garota e deu de presente para ela (o Metallica tocou na Argentina uma semana depois dos shows no Brasil). Fiquei meio com raiva na hora, mas hoje dou risada da história. Até porque eu acabei me vingando um pouquinho do roadie do Jason, se é que você me entende.

[kml_flashembed movie=”http://www.youtube.com/v/Mlahvvymkxc” width=”425″ height=”344″ wmode=”transparent” /]