'Trovoa': A melhor música do mundo (hoje)

Estadão

05 de junho de 2009 | 13h37

Desculpe-me pela escassa produção durante a semana; além da queda do avião da Air France, estive envolvido na cobertura de dois eventos organizados pelo Estadão que tomaram quase todo o meu tempo. Dois eventos, aliás, muito legais: o lançamento do novo site do LINK (vídeo abaixo) e o início do ‘Paladar – Cozinha do Brasil’, um verdadeiro laboratório gastronômico que reúne chefs de todo o País (e alguns de fora) para discutir os rumos da culinária brasileira. Se tudo der certo, ao final deste evento terei engordado três deliciosos quilos.

Já que estamos perto do fim de semana, aqui vai uma das minhas canções favoritas. A letra, maravilhosa, pode ser lida em formato de texto corrido, como uma carta. É linda, assim como a melodia. Para acompanhar ‘Trovoa’, de Maurício Pereira, segue abaixo o vídeo realizado no estúdio da TV Estadão em que ele é acompanhado pelo tecladista Daniel Szafran. Sugiro que você veja o vídeo acompanhando a letra – e vice-versa. Poucas músicas mexem tanto comigo quanto essa, por que será? Por que será que algumas canções conseguem tocar o fundo da alma como se tivessem sido escritas especificamente para a gente?

Trovoa
Maurício Pereira

Minha cabeça trovoa sob meu peito te trovo e me ajoelho, destino canções para os teus olhos vermelhos. Flores vermelhas, vênus, bônus, tudo o que me for possível. Ou menos (mais ou menos) me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza física também, mas não só. Não só

Graças a Deus você existe, acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio. Te ergo com as mãos, sorrio mal, mal sorrio. Meus olhos fechados te acossam fora de órbita, descabelada diva. Súbita, súbita…

Seja meiga, seja objetiva, seja faca na manteiga. Pressinto como você chega, ligeira, vasculhando a minha tralha e bagunçando a minha cabeça. Metralhando na quinquilharia que carrego comigo (clipes, grampos, tônicos): toda a dureza incrível do meu coração feito em pedaços.

Minha cabeça trovoa, sob teu peito eu encontro a calmaria e o silêncio. No portão da tua casa no bairro famílias assistem TV (eu não) às 8 da noite. Eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e, como você, eu sei, quer dizer, eu acho que sei, eu acho que sei…

Vou sossegado e assobio e é porque eu confio em teu carinho mesmo que ele venha num tapa. E caminho a pé pelas ruas da Lapa (logo cedo, vapor… acredita?). A fuligem me ofusca, a friagem me cutuca, o nascer do sol visto da Vila Ipojuca. O aço fino da navalha me faz a barba, o aço frio do metrô, o halo fino da tua presença…

Sozinha na padoca em Santa Cecília no meio da tarde, soluça, quer dizer, relembra. Batucando com as unhas coloridas na borda de um copo de cerveja, resmunga quando vê que ganha chicletes de troco.

Lembrando que um dia eu falei ‘sabe, você tá tão chique’ meio freak, anos 70. Fique, fica comigo. Se você for embora eu vou virar mendigo. Eu não sirvo pra nada, não vou ser teu amigo. Fique, fica comigo…

Minha cabeça trovoa sob teu manto me entrego ao desafio de te dar um beijo e entender o teu desejo, me atirar aos teus peitos. Meu amor é imenso, maior do que penso, é denso. Espessa nuvem de incenso de perfume intenso e o simples ato de cheirar-te me cheira a arte, me leva a Marte, a qualquer parte. A parte que ativa a química, ignora a mímica e a educação física. Só se abastece de mágica explode uma garrafa térmica por sobre as mesas de fórmica de um salão de cerâmica onde soem os cânticos. Convicção monogâmica, deslocamento atômico, para um instante único em que o poema mais lírico se mostre a coisa mais lógica.

E se abraçar com força descomunal até que os braços queiram arrebentar toda a defesa que hoje possa existir e, por acaso, queira nos afastar… Esse momento tão pequeno e gentil e a beleza que ele pode abrigar, querida nunca mais se deixe esquecer onde nasce e mora todo o amor.

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