Michael Haneke: O melhor cineasta da atualidade

Estadão

11 Fevereiro 2010 | 15h24

A Fita Branca

A primeira vez que vi um filme de Michael Haneke foi em 1999, dois anos depois do lançamento de ‘Violência Gratuita’. Li uma boa crítica a respeito do filme que me deixou bastante curioso, e em uma visita à locadora vi o DVD do filme à venda em uma promoção. Como o preço era quase o mesmo da locação, comprei o DVD e cheguei em casa ansioso para ver se o filme era mesmo tudo aquilo.

Não é um filme fácil, muito pelo contrário. É um filme violento, agressivo, que choca quem não está preparado. Pelo jeito, eu não estava: quando o filme acabou, fiquei tão revoltado que voltei à locadora e exigi que o atendente o trocasse por outro. Ele concordou. Ainda tive que desembolsar um dinheiro extra para voltar para casa com a edição especial de ‘Scarface’. Eu nunca mais queria ver Michael Haneke de novo.

No dia seguinte, comecei a pensar no filme. Até que era interessante, uma abordagem bastante inovadora e complexa da violência. Os personagens não tinham muita emoção, eram muito cerebrais. Era um filme muito inteligente, não sei como não vi isso assim que o filme acabou. Passei o dia pensando no filme, nos diálogos perturbadores e verdadeiros, no pequeno detalhe de uma situação em que os protagonistas ‘voltam’ a cena apertando uma tecla do controle remoto… Quando saí do trabalho, voltei à locadora e comprei o filme de novo. Agora eu estava preparado para Michael Haneke.

Tudo isso para dizer que ‘A Fita Branca’ (Das Weisse Band), o novo filme dele, estreia amanhã e é um dos filmes mais sensacionais que vi nos últimos anos. É estranho dizer isso numa época em que Avatar-Imax-3D bate todos os recordes de bilheteria, já que o filme de Haneke é uma jóia em preto e branco sobre uma pequena aldeia na Alemanha pré-nazismo.

Mas é exatamente isso que faz do filme essa preciosidade. Ele é filmado com uma perfeição digna do grande mestre que Haneke é. Seu preto e branco tem nuances de azul e sépia que transformam o filme em algo único, extremamente belo. O que é um contraste em relação à história, bastante cruel.

O filme traz uma série de situações de crueldade que podem ou não terem sido cometidas por um grupo de crianças. Como todos os filmes de Haneke, os personagens são contidos, sofrem em silêncio ou são vítimas de atrocidades sobre as quais não querem (nem conseguem) reagir. É um reflexo da geração que levaria ao mundo o projeto de poder de um monstro como Hitler, mas nem por isso o filme é antinazista. Ele é mais como um documento de que a violência pode nascer em qualquer lugar, dentro de qualquer ser humano, não importa se a felicidade está presa ao presente apenas por um fio de vento gelado.

Digo que o filme não é antinazista, mas reforço a tese de que ele é totalmente anti-autoritário, o que obviamente não é a mesma coisa. Ele poderia ter sido feito em outro país e outra época, mas não teria a mesma força. Sabemos que Haneke é austríaco, sabemos que o nazismo nasceu na época do filme. E isso é um cenário subentendido extremamente poderoso, porque provoca uma tensão ainda maior que aquela a que estamos acostumados quando vemos um filme de Haneke. E esse é seu melhor filme: não foi à toa que venceu a Palma de Ouro em Cannes e caminha para levar fácil, fácil, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Assisti ‘A Fita Branca’ no festival de cinema de Nova York, quando tive a oportunidade de conhecer Michael Haneke. Ele respondeu a algumas perguntas no evento, com uma serenidade tão tranqüila que é difícil imaginar que aquele homem alto, magro, de aparência tão comum seria capaz de criar análises tão profundas do comportamento do ser humano. Stanley Kubrick, meu maior ídolo, já dizia que o ser humano é mau e que sua essência é destrutiva. Haneke parece confirmar a tese, independente de ideologias e dogmas patrióticos. Como tenho feito com todos os filmes de Haneke, também pretendo comprar o DVD assim que chegar às lojas. E não tenho a menor intenção de trocá-lo, nunca, por nenhum outro. Eu nunca estive tão preparado para guardar mais um Haneke na minha prateleira.

Filmografia de Michael Haneke

A Fita Branca (2009)
Violência Gratuita (versão americana, 2007)
Cachê (2005)
Tempos de Lobo (2003)
A Professora de Piano (2001)
Código Desconhecido (2000)
Violência Gratuita (1997)

FM - Michael Haneke