Meu fim de semana com o Iron Maiden

Estadão

03 de março de 2008 | 16h09

SteveFelipe

Para um fã de rock, ver um show da sua banda favorita na adolescência já é quase um sonho. Imagine então jogar futebol e ainda subir ao palco para dividir o microfone com o líder da banda, o cara que você sempre quis ser. Para quem era um garoto fanático pelo Iron Maiden desde 1985, quando tinha 15 anos, foi uma sensação indescritível.

Tudo bem, quem não gosta de heavy metal vai dizer ‘grande coisa’. Mas se você fizer um paralelo com outros ídolos, vai entender sobre o que estou falando. Se você é fã da Fernanda Montenegro, por exemplo, adoraria passar o fim de semana tricotando com ela, ou sei lá o que a Fernanda Montenegro faz. Se você é fã da Paris Hilton, imagine que alguém te ofereceu um quarto ao lado da suíte dela na clínica de reabilitação.

Pois para quem é fã do Iron Maiden, jogar futebol e tomar uma cerveja com o Steve Harris é a mesma coisa. Sempre fui fã do Iron Maiden e, em especial, do baixista, líder e fundador da banda. Sempre achei que ele tinha alguma coisa interessante, não apenas por ser um dos melhores baixistas da história do rock, mas por ter uma carreira com muitos mais altos que baixos, sem nunca ter perdido a credibilidade e a atitude, e ainda por conseguir manter acesa uma paixão pelo que faz que não parece ter mudado nem um pouco desde que ele formou o Iron Maiden, em 1976.

No sábado, joguei bola contra o time do Steve (olha a intimidade – foto by Daniel Motta). Ele trouxe uns amigos ingleses que jogavam muito bem (depois fui saber que o time de Steve joga numa liga amadora na Inglaterra) especialmente para o jogo. O nosso time era formado por roqueiros como o Roger, do Ultraje a Rigor, Andreas Kisser, do Sepultura, eu e alguns outros caras como Victor Birner, comentarista da CBN, Luiz César Pimentel, do MySpace, e Marco Bezzi, do JT. Jogaram no nosso time ainda os ex-goleiros do Corinthians, Solito e Ronaldo, mas nem isso nos salvou. Como nunca havíamos jogado juntos e o preparo físico deixou muito a desejar (pelo menos o meu), não teria sido difícil adivinhar o placar: 7 a zero para eles. Artilheiro do jogo com dois gols, Steve mostrou que joga muito bem: ele é baixinho e habilidoso, uma espécie de Zico do Metal – se o Zico tivesse o cabelo até a cintura.

Depois do jogo, em um evento organizado pela gravadora EMI e o MySpace, fomos todos comer churrasco e tomar cerveja – até porque ninguém é de ferro, nem mesmo o líder da ‘Donzela de Ferro’. Aí tive a chance de conversar um pouco com Steve; dei uns discos e camisetas do Viper, e até pedi autógrafo. Constrangedor? Um pouco. Mas se eu não tivesse feito isso, o garoto que tinha 15 anos em 1985 nunca me perdoaria.

No dia seguinte, o show no Parque Antártica. O repertório foi incrível, praticamente igual ao do DVD ‘Life After Death’ e do primeiro show da banda no Brasil, o Rock in Rio I. Introdução com discurso de Winston Churchill, ‘Aces High’, ‘Two Minutes to Midnight, estavam todas lá. Mas o momento que eu estava esperando veio mais no final, em ‘Heaven Can Wait’.

É nessa música que a banda homenageia os fãs e amigos, convidando-os para subir ao palco e cantar o refrão ‘ô ô ô’. Eu, alguns ganhadores de promoção e vários jogadores do time de Steve Harris estávamos atrás do palco, só esperando, até que o roadie empurrou todo mundo para dentro. Aí foi inacreditável mesmo: minutos atrás, eu estava na pista assistindo ao show da banda favorita da minha adolescência. Pouco depois, estava no palco, cantando ‘ô ô ô’ ao lado do Steve Harris para um público de 40 mil pessoas.

Foi tudo muito rápido, claro. Mas lembrei de muitas coisas que já estavam meio esquecidas, acho que guardadas em alguma gaveta remota da minha memória. Lembrei das tarde de sábado que eu e meus amigos Pit e Yves Passarell passávamos no centro da cidade, correndo atrás de discos em lojas como a Woodstock Discos; lembrei das festinhas regadas a Coca-Cola na minha casa, onde uma galera se reunia para ver no vídeo os shows de bandas como Iron Maiden e Judas Priest, tão difíceis de encontrar no Brasil; lembrei de como a gente passava o dia inteiro tentando aprender a tocar os arranjos dos guitarristas Dave Murray e Adrian Smith, como se cada acorde descoberto nos aproximasse um pouco mais do mundo da música profissional, dos palcos de verdade, na época tão distantes das garagens ridículas que a gente ensaiava.

Pois é, o fim de semana chegou ao fim e não aconteceu o que geralmente acontece naqueles filmes B, quando o cara que passou por situações incríveis acorda de um sonho e a gente percebe que foi tapeado durante duas horas. Não aconteceu nada disso: me belisquei e… doeu. Eu estava acordado, era tudo verdade. Posso dizer, no entanto, que meu fim de semana com o Iron Maiden também teve um final inusitado: descobri que o garoto que tinha 15 anos em 1985 e o cara que tem 37 em 2008 são a mesma pessoa.

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