Show do Metallica em São Paulo. E nada mais importa

Estadão

01 Fevereiro 2010 | 14h18

James Hetfield
James Hetfield é um dos grandes ‘riff makers’ da história do rock. Por essas e outras, eu queria ser esse cara

Foto: Leonardo Soares/AE

(A primeira parte do texto é sobre curiosidades e casos sobre o Metallica. Se quiser ler a crítica do show, desça até a segunda parte. Valeu, F.)

Primeira parte

A primeira vez que vi o Metallica ao vivo foi em 1989, quando a banda veio ao Brasil para divulgar o álbum ‘… And Justice for All’ com um show no Ginásio do Ibirapuera. Na época, o Metallica ainda não era conhecido do grande público, mas já era motivo de fanatismo entre os headbangers.

É por isso que uma das lembranças que mais me remetem a essa época é a do meu amigo Edgard Prado levando o guitarrista James Hetfield em seu Uno para visitar a Woodstock Discos num sábado à tarde. O local, o maior reduto dos fãs de heavy metal em São Paulo, ficava lotado de gente trocando discos, vendendo revistas importadas, ‘fazendo rolo’ com broches e pins das suas bandas favoritas. Ao saber que James estava no carro, a multidão ficou alucinada e a solução foi voltar para o hotel. Sem conhecer a Woodstock, claro.

Em 1993, a situação era bem diferente. O VIPER era uma banda de sucesso, tínhamos acabado de lançar o disco ‘Evolution’ e nossas músicas tocavam nas rádios de rock e na MTV. Daí veio o convite para abrir os dois shows do Metallica no Parque Antártica. Foram os dois melhores dias da minha vida até então: o público não vaiou (até gostou, incrível!), gravamos um clipe e até conhecemos os caras.

‘Evolution’, gravado na abertura do show do Metallica (1993)

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Os caras do Metallica foram muito simpáticos: nos convidaram para ir até o camarim e nos deram camisetas da turnê, bonés, ofereceram até umas cervejas (na época eles ainda bebiam, e muito). Fiquei impressionado com a estrutura do backstage, na época eu achava que camarim com espelho no banheiro era a coisa mais luxuosa do mundo. O camarim deles tinha sofás e aparelhos de TV dentro de cases, e aí entendi que eles viajavam com os móveis e toda a estrutura, justamente para montar exatamente o mesmo camarim não importava se eles estavam em São Paulo ou Timbuktu. Também me chamou a atenção o serviço de catering (alimentação) da banda: tudo do McDonald’s. Eles alegaram que era a única maneira de saber exatamente o que se estava comendo, não importava se eles estavam em São Paulo ou… sei lá, Timbuktu.

Aconteceu um episódio tão inusitado que sou obrigado que contar aqui, perdoe minha indiscrição. Quando nos encontramos com o Metallica, dei de presente ao Jason Newsted, então baixista da banda, uma camisa do VIPER pintada à mão, toda bonitona e exclusiva. Tinha esperança de que ele a usasse no show, já que Jason tinha fama de ajudar bandas novas. Ele não usou, enfim. E eu esqueci o assunto.

Uma semana depois, o VIPER foi fazer um show em Buenos Aires, na Argentina. O Metallica tinha tocado lá depois do show de São Paulo, então durante a tarde de autógrafos que fizemos muitos argentinos vieram nos falar sobre o show deles, etc. Na fila para os autógrafos, estava uma garota. Muito bonita, por sinal. E ela vestia exatamente a mesma camiseta que eu havia dado para o Jason Newsted.

Olhei para ela e achei muito esquisito, afinal, não era uma camiseta normal, que ela poderia ter comprado em qualquer loja de rock. Era exclusiva, pintada a mão, etc. Perguntei onde ela tinha comprado a camiseta; ela deu uma risadinha e mudou de assunto. Mas a garota era muito bonita, papo vai, papo vem, acabamos trocando telefones e saímos depois do show do VIPER. Resumindo a história, ela me contou que um roadie do Metallica havia dado de presente. Ou seja, olha só o caminho que a camiseta fez: Do artista que a pintou a mão para mim; de mim para o baixista do Metallica; do baixista do Metallica para um roadie qualquer; do roadie para a garota de Buenos Aires. Fiquei tentado a roubar de volta a camiseta, mas desisti. A argentina com certeza mereceu ficar com ela.

Segunda parte

Onze anos depois de tocar em São Paulo, o Metallica estava de volta. Não me lembro bem do show de 1999, acho que nem fui – embora tenha um amigo que garanta que fui com ele (tem certeza, Rodrigão?). De qualquer maneira, era a fase dos discos ‘Load’/ ‘Reload’, os piores da carreira da banda. Havia uma certa ‘bad vibe’ ao redor do Metallica, algo que depois ficaria mais claro quando saiu o documentário ‘Some Kind of Monster’. No filme, a banda contrata um psicólogo para lavar a roupa suja de drogas, álcool e a saída do Jason Newsted (olha ele aí de novo) da banda. A parte legal do documentário é a escolha do novo baixista, Robert Trujillo. Em um dos melhores momentos, eles chegam para o cara e dizem. “Olha só, a gente gostou do seu teste e quer que você entre na banda. E para mostrar que confiamos em você, aqui está um cheque de 1 milhão de dólares.” Uau.

A expectativa para os shows da nova turnê, no entanto, não tinha nada a ver com esta fase. A banda voltou a lançar um disco muito bom, ‘Death Magnetic’, e parou com as drogas e a bebedeira. O vocalista/guitarrista James Hetfield, o guitarrista Kirk Hammett e o baterista Lars Ulrich (além do baixista Robert Trujillo) estão numa boa, mais amigos, mais focados no som do Metallica. E aí o show sempre rola melhor.

No sábado, às 18h, entrei no Salão Nobre do São Paulo (argh!) para a coletiva da banda. Chegam os quatro seríssimos, todos de óculos escuros, caras de mau e atitude de rockstar profissional. James é um troglodita, alto, fortão, inteiro tatuado. Kirk é um cara, digamos, ‘mais sensível’: faz ioga, estava de chinelo… deve ser vegetariano. Trujillo deve estar realizando o sonho da vida dele, então pra ele deve estar tudo ótimo. E Lars é o chatinho da banda, arrogante, irônico, mas bastante inteligente. Ele fundou o Metallica ao lado de James, então ‘se acha’ compulsivamente.

Veja matéria sobre a coletiva do Metallica na TV Estadão:

As perguntas dos jornalistas brasileiros não ajudaram muito, ficaram mais na ‘expectativa para o show’, etc. Tentei uma pergunta diferente: como eles conseguem mudar tanto de repertório de um show para o outro? Quantas músicas eles têm na manga? E como escolhem se uma vai entrar e a outra vai sair, baseado em quê?

Lars respondeu, com aquele jeitinho de quem se acha: “Temos de 60 a 70 músicas ensaiadas e as escolhemos baseadas na quantidade de shows na mesma cidade, no repertório que estamos a fim de tocar, até na direção do vento.” Peraí. Na direção do vento, Lars? Então tá então.

Fim da coletiva, eles ganham discos de ouro (por ‘Death Magnetic’) e dupla-platina (pelo DVD ‘Orgulho, Paixão e Glória’, ao vivo no México, sensacional). E ganham camisas do São Paulo com os nomes bordados nas costas. Ainda bem que não usaram no show. Se pelo menos fosse do Corinthians…

O Sepultura entra para a abertura do show e toca um repertório até longo, cerca de uma hora. As músicas mais antigas são legais, como ‘Dead Embrionic Cells’ e ‘Refuse/Resist’, mas confesso que o novo repertório não me agrada muito, acho as músicas muito parecidas. Falta um pouco de comunicação entre o vocalista Derrick Green e o público, não sei se o fato de ele ser americano e ainda não dominar o português ainda pesa. Falar ‘Sepultura do Brasil’ com sotaque gringo não convence.

Hora do Metallica: as luzes se apagam e ‘Heavy Metal Thunder’, do Saxon, explode nos alto-falantes. O Saxon era uma bandinha meia boca dos anos 80, mas eles fizeram parte da New Wave of British Heavy Metal, escola de bandas inglesas (Iron Maiden, Samsom, Def Leppard, etc) onde o Metallica bebeu grande parte da sua influência.

No telão, cena de ‘Três Homens em Conflito’ (The Good, The Bad and The Ugly, com Clint Eastwood) ao som do maravilhoso épico ‘Ecstasy of Gold’, de Enio Morriccone. É agora.

Metallica! Metallica! Metallica!

A primeira é ‘Creeping Death’, do disco ‘Ride the Lightning’. Sensacional. O poder que o heavy metal tem de transformar em uníssono 68 mil vozes é impressionante. Se não estivesse em um show, daria medo ouvir tanta gente gritando ‘Die! Die! Die!’ (Morra!). Tem um componente do metal que é muito libertador, catártico, alucinante. Tem outro que é meio assustador, meio fascista até. As mãos para o alto obedecendo cegamente a quem está no palco, as palavras de ordem, o delírio. Ainda bem que as bandas de heavy metal geralmente têm boas intenções, ao contrário do que as pessoas ‘de fora’ pensam. É muito mais fácil você encontrar confusão em uma festa de rodeio do que em um show de heavy metal, apesar do arquétipo roqueiro ser muito mais, digamos, assustador.

(Para ler o relato de um fanático pelo Metallica, clique aqui e leia o blog do Anderson Bellini.)

James Hetfield cumpre bem esse papel de ‘roqueiro do mal’, já que tem os braços inteiros tatuados e passa o show inteiro fazendo caretas e cuspindo. Mas isso não é o mais importante nele. Além de ser fundador e compositor principal da banda, é incrível vê-lo tocando e cantando, porque os riffs de guitarra não tem nada a ver com a melodia da voz. Deixa ver se expliquei bem: é bem provável que James seja o cara mais coordenado do mundo. Se você não acredita em mim, tente aprender um riff do Metallica na guitarra (já é bastante complicado). E aí, cante em cima uma melodia totalmente diferente do riff. Se você considera assobiar e chupar cana ao mesmo tempo difícil, tente isso.

Outra coisa impressionante no Metallica é que o show deles é extremamente simples e focado na música. Há um telão gigante, sim, e uma plataforma para James Hetfield passear, bem em cima da bateria. Mas fora isso e os fogos de artifício, não há nada especial. É tudo muito básico, a banda inteira de preto, sem muitas luzes coloridas. A música é 100% do show.

Talvez seja por isso que o repertório é tão inacreditável. Para facilitar, vou fazer como os comentaristas esportivos (afinal o show foi no Morumbi, 🙂

‘Creeping Death’
Abertura delirante. Impossível ficar parado. 9

‘For Whom the Bell Tolls’
Sombria e perfeita: 8

‘The Four Horsemen’
Um dos melhores riffs de guitarra da história do rock: 9

‘Harvester of Sorrow’
Meio arrastada, a única que poderia ficar de fora: 6

‘Fade to Black’
Linda, maravilhosa. Quando quase 70 mil pessoas cantam a melodia de um solo de guitarra, pode ter certeza de que esse solo é incrível. 10

‘This was Just your Life’
É a minha favorita do disco ‘Death Magnetic’. Pesada, épica, vocal meio punk. 8

‘The End of the Line’
Boa música do disco novo, mas nada de tão sensacional. Preferia que eles tivessem tocado ‘Cyanide’. 7

‘The Day That Never Comes’
Outra boa do disco novo. Boa música, suingada e pesada. 8

‘Sad but True’
Uma das minhas favoritas do disco preto. James dedicou essa música ao Sepultura, dizendo que o Brasil ‘gosta de heavy’. Essa deve ser uma das músicas mais pesadas do mundo: pesada e com uma letra muito boa. 10

‘Broken Beat Scarred’
A última do disco novo, já está bom. Legalzinha. Se fosse de qualquer outra banda de metal, ganharia nota 10. Como é do Metallica, ganha só 7

‘One’
Sem palavras. Em vez de ser no final, os fogos de artifício foram no meio do show (como é que ninguém pensou nisso antes?). Linda, outro solo maravilhoso. A parte do meio é de arrepiar. Uma das melhores do show. 10

‘Master of Puppets’
Quem acha que é fácil tocar heavy metal deve tentar tirar as guitarras dessa música. Não é a mais complicada do Metallica (há algumas realmente complexas), mas tem várias partes, mudanças de ritmo. Fora isso, é a música que batiza o melhor disco do Metallica. Pena que não tocaram ‘Battery’. 10

‘Blackened’
Adoro essa música. É a música perfeita para abrir um show, um disco… na verdade, para abrir qualquer coisa: é só pôr essa música no volume 10 que até as portas do inferno se abrem. 9

‘Nothing Else Matters’
A balada mais importante do Metallica. Não apenas porque ela é do disco preto e fez muito sucesso, mas porque ela explica didaticamente para os fãs que o Metallica faz o que quer, quando quer e a hora que quer. Eles são verdadeiros, honestos. E nada mais importa. Meu amigo Marco Bezzi vai ficar bravo (ele odeia a música), mas aqui vai a nota: 10

‘Enter Sandman’
Até quem não gosta de heavy metal conhece essa música, ela tocou muito no início dos anos 90. Não tem o que dizer, é uma das melhores músicas da história do rock e a última do show (antes do bis). Estou ouvindo o refrão até agora, cantado pelo estádio inteiro “Exit, Light…”. 10

(Bis)

‘Stone Cold Crazy’
O Metallica sempre volta para o bis com um cover. Dessa vez foi a música do Queen, outra banda que eu amo. A versão original já é super pesada, mas com o Metallica ficou um negócio de outro mundo. No domingo, eles tocaram ‘Helpless’, do Diamond Head. Em Porto Alegre, tinham tocado ‘Die, My Darling’, do Misfits. As três são legais, mas acho que dei sorte. A do Queen é a melhor delas. 9

‘Motorbreath’
Em 1985, quando o VIPER começou, Motorbreath fazia parte do nosso repertório. É uma música tão rápida que tínhamos dificuldade em tocá-la na mesma velocidade do Metallica. Me levou de volta à adolescência, como grande parte do show, aliás. Ver um show do Metallica custou R$ 500 (pista VIP), R$ 250 (pista) e R$ 150 (arquibancada). Voltar à adolescência e gritar como um desesperado: não tem preço. 10

‘Seek & Destroy’
Não tinha como acabar com outra, essa é a música mais clássica do Metallica. E é do primeiro disco, o fenomenal ‘Kill’em All’, de 1983. Já faz quase trinta anos, e a música é incrivelmente atual. Antes de começar, James até tirou um barato dos fãs:

“Vocês gostam dessa música?”
“Sim!!!”
“E por quê?”
(Público confuso)
“Eu sei porquê. Porque a letra é fácil!”

(Pô, James, não precisa humilhar, né?)

Bom, não sei se é só por isso, mas eu gosto, sim, dessa música. Muito: 10

O show acabou e muitos amigos meus decidiram voltar no dia seguinte. Eu acabei optando por outro show, Corinthians 1 X 0 Palmeiras, no Pacaembu. Mas passei o domingo lembrando do show do Metallica, de cada solo de guitarra, de cada virada de bateria do Lars. E não apenas porque meu ouvido continuava zumbindo: acho que é possível dividir a vida de todo mundo em fases musicais. Desde a minha adolesência, o Metallica está sempre presente. Cada fase é de um jeito, claro, mas acho legal constatar que mesmo megabandas de rock como o Metallica também têm suas fases. Suas vitórias, suas derrotas; suas ‘bad vibes’, suas ‘good vibes’. No fundo, apesar da fama e do dinheiro, as pessoas são muito parecidas. E o Metallica é uma banda que dá orgulho de ser fã, porque eles são sempre verdadeiros, sempre honestos. E nada mais importa.