Manowar: Show apelativo e repertório decepcionante

Estadão

10 de maio de 2010 | 13h56

Manowar: Banda não tocou nenhum sucesso e fãs saíram enfurecidos

Manowar: Banda não tocou nenhum sucesso e fãs saíram enfurecidos

Foto: MRossi

Uma das melhores frases do escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw diz o seguinte: ‘Se aos 20 anos você não é comunista, você não tem coração. Se aos 30 você não é capitalista, você não tem cérebro’. Há mais semelhanças entre o comunismo e a banda americana Manowar do que imagina a sua vã filosofia.

Fui ao show do Manowar na última sexta-feira no Credicard Hall, em São Paulo. Não foi apenas um show ruim: foi um dos shows mais ridículos que já vi na vida – e olha que eu já vi shows na vida. Se você é um fã radical de Manowar e acha que o que eu estou dizendo é um absurdo, por favor leia o texto até o final.
Vamos começar pelo começo: eu sempre fui fã de Manowar. Eu deveria ter vergonha de dizer isso, mas acho que temos que ser honestos com quem somos e, mais importante ainda, com quem éramos. Em 1986, minha banda de rock, o VIPER, se apresentou em um bar chamado Ácido Plástico, um buraco horroroso bem ao lado do (in)esquecível presídio do Carandiru (diziam que fugitivos se escondiam lá, para você ter uma ideia do nível do local). Bem, isso tudo para dizer que terminamos esse nosso show com uma versão de ‘Battle Hymns’, um épico do primeiro disco do Manowar.

Confesso que na época a gente não conhecia o visual dos caras, já que eles não tinham clipes e era muito difícil ter acesso a shows em vídeo. A gente sabia que eles se vestiam como vikings, que adoravam o deus Odin, etc. Mas víamos isso apenas como uma escolha temática da banda, assim como as maquiagens do Kiss ou os demônios do Slayer. Muitas bandas sempre abusaram de personagens e temas, e o Manowar era apenas mais uma delas.

Lembrando ainda que estamos falando da época em que o filme ‘Conan, o Bárbaro’ havia acabado de ser lançado… Portanto, o tema ‘viking’ não era uma coisa tão distante assim do que rolava na época, dá para dizer que era quase uma ‘modinha’. (Acabo de saber que morreu o ilustrador de Conan, Frank Frazetta. Leia a matéria aqui.) Manowar e Conan, inclusive, influenciaram o VIPER a escrever uma canção sobre o tema, ‘The Law of the Sword’ (A Lei da Espada). Na época, a média de idade da nossa banda era de 16 anos e a gente achava isso o máximo. Tinha uma coisa de ‘guerreiros’, de ‘honra’, que era muito legal quando transposto para a nossa realidade, uma coisa de acreditar no heavy metal como forma de manter sua personalidade dentro de uma sociedade opressiva e massificante. Quando se é adolescente, faz todo o sentido se sentir ‘parte uma turma’, de uma ‘gangue’. Alguém viu o filme ‘Warriors’? Pois é.

O VIPER não tocava apenas ‘Battle Hymns’. No nosso repertório havia ‘All Men Play on Ten’, ‘Animals’, ‘The Oath’, ‘Sign of the Hammer’, ‘Blood of my Enemies’, ‘Army of Immortals’ e várias outras. Ou seja, conheço a banda desde o seu início. E foi justamente esse sentimento de nostalgia que me fez ter vontade de ver o show.

Na véspera, entrevistei o baixista Joey DeMaio, líder do Manowar. Ele se portou de maneira profissional, como um verdadeiro rockstar. Até mais do que ele é, para falar a verdade. Um assessor ficava o tempo inteiro pedindo para eu apressar as perguntas, como se o baixista do Manowar tivesse muitas atividades importantes. Não tinha. Além de mim, o único interessado em entrevistá-lo era o vocalista do Massacration, Bruno Sutter, também conhecido como Detonator. O assessor do Manowar deve achar que trabalha para o Metallica ou para o Iron Maiden. Pensando bem, o Metallica e Iron Maiden são bem mais simpáticos.

(Parênteses: Há no site Whiplash, especializado em heavy metal, uma das histórias mais hilárias dos últimos tempos. Ela diz que, segundo um morador da mesma cidade do Manowar, no norte do estado de Nova York, a banda é totalmente falida, seus integrantes moram com os pais e fazem bicos na construção civil. Eu, pessoalmente, acho que a história é inventada, até porque nos Estados Unidos qualquer bandinha média consegue ganhar uma grana. De qualquer maneira, vale a pena ver porque é muito engraçada.)

Foi minha memória de fã adolescente que me levou ao show do Manowar. Logo na porta, encontrei alguns amigos ‘das antigas’. Todo mundo brincando um com o outro, fazendo piadinhas com as barrigas salientes e as cabeleiras que se transformaram em penteados ‘normais’. Havia algumas pessoas fantasiadas com elmos e espadas, o que considerei até uma mostra de senso de humor explícito, impensável na minha época. Me senti numa convenção do Star Trek, mas com vikings no lugar dos Spoks. Um clima legal, divertido, acabei até ficando satisfeito por ter ido ao show. Tudo isso até o show começar.

O Manowar entrou no palco ao som de uma música nova, o que é normal para uma banda americana que está em turnê pela América do Sul: eles querem vender o disco mais recente, ‘Thunder in the Sky’ (‘Trovão no Céu’, um singelo pleonasmo-metal). Eu não conhecia essa música, mas até fiquei feliz em ver Joey DeMaio e Eric Adams (vocalista) no palco. Certamente o show ficaria legal quando tocassem alguma música conhecida.

Infelizmente, isso não aconteceu. Um amigo meu conseguiu uma cópia do repertório do show, e lá dizia que o Manowar não tocaria nenhum ‘clássico’. Fiquei revoltado. O Manowar tem uns 15 discos, mas lá dizia que só tocariam músicas dos três últimos. Não tocariam sequer a música ‘Manowar’, que batiza a banda e é do disco de estreia deles. Achei muito esquisito porque, apesar de ver que havia no show vários fãs mais novos, é óbvio que uma banda com 25 anos não pode desprezar totalmente seu passado. A não ser que haja alguma pendência judicial em relação a direitos autorais, que é o que imagino. Não pode haver outra explicação. Não tocar absolutamente nenhuma música conhecida seria muita falta de respeito com quem pagou de R$ 100 a R$ 300 pelo ingresso.

Quando vi que isso ia, sim, acontecer, decidi ir embora. Eu já estava achando o show ruim, mas até aí não havia nada absurdo: era apenas um show ruim de uma banda formada por bons instrumentistas, mas que apresentava um som datado e clichê. Comparado com o Manowar, o Spinal Tap é uma banda que deve ser levada a sério.

Foi aí que começaram os exageros. As luzes se acenderam, a música parou, e o baixista Joey DeMaio veio ao microfone falar com o público. Ele começou o discurso dizendo que o Manowar era a banda mais pesada do mundo, a melhor, a mais verdadeira. “Se você não é fã do Manowar, fuck you” foi a frase mais profunda do discurso. O desagradável não foi vê-lo falar bem da própria banda, o que já seria esperado. O difícil foi agüentar o papo de ‘pastor do heavy metal’ de Joey DeMaio, exatamente como se eu tivesse ligado a TV em um daqueles programas de charlatões-fanáticos religiosos.

Era um discurso de lavagem cerebral sem um pingo de humor, totalmente arrogante e autoritário. Imagine um imã islâmico com o cabelo até a cintura e o rosto da Mona Lisa. Ele agia como se os fãs de heavy metal fosses pessoas manipuláveis, corpos vazios esperando um pseudo-ídolo para preenchê-lo com bobagens e frases de efeito de quinta categoria. Imagine um pastor evangélico vestido como um viking: você entendeu.

Antes de sair do palco, em um ato de populismo-metálico, DeMaio convidou um fã para tocar uma música no palco. Muito legal, o cara subiu, empolgado, etc. Daí DeMaio deu uma cerveja para o cara, fez um concurso de quem bebe mais rápido e mandou o cara tirar e jogar a camiseta do Iron Maiden para a plateia, porque ele daria uma camiseta de uma ‘banda de verdade’ (não precisamos dizer que banda seria essa, não?).

O fã vestiu a camiseta do Manowar e começou a tocar com a banda. DeMaio então convidou algumas ‘garotas brasileiras’ para dançar no palco, porque faltava o lado sexista ao discurso de pastor heavy metal. Nunca vi uma coisa tão apelativa, e olha que esse blog se chama ‘Palavra de Homem’. Começou o show de strip-tease, com três groupies brasileiras se beijando e realizando outras baixarias que não cabem em um blog família como esse. Nesse momento, fiquei pensando se eu ia escrever a crítica do show dentro da editoria ‘Trilha Sonora’ ou ‘Borracharia’. Fiquei meio com pena das garotas, até porque conhecia duas delas. Elas não tinham noção do espetáculo bizarro de que estavam participando: dançando peladas no Credicard Hall durante um show do Manowar para quatro mil pessoas. Como consolo, resta dizer que as garotas eram bem bonitas.

Mas peraí, eu não devia estar falando de um show de rock? Essa não era a melhor banda de heavy metal do mundo, do universo… de Asgard, terra de Odin? Eles não eram os Reis do Metal? “As outras bandas tocam, o Manowar mata”, era o slogan deles nos anos 80. “As outras bandas tocam, o Manowar apela” seria mais honesto.

Pode ser que o Manowar ache que um bom show de rock deve ter mulheres peladas no palco, músicos errando tudo porque exageraram na bebida e discurso de líder religioso de quinta categoria. Eu não acho, mas isso é só minha opinião. É por causa de bandas como o Manowar que as pessoas têm preconceito com o heavy metal. Não deveria ser assim: é um estilo pesado, radical, mas formado por bandas musicalmente boas e fãs inteligentes.

Não fui o único a ir embora do show na metade. Gosto tanto de ir a shows que o show tem que ser muito ruim para eu ir embora antes do final. Outros amigos também foram quando souberam que eles não tocariam nenhuma música famosa. Mais tarde, recebi mensagens dizendo que o Manowar foi vaiado no final do show e os fãs revoltados gritaram ‘Iron Maiden, Iron Maiden’. Me contaram até que uns caras queimaram camisetas do Manowar na saída do show. Também não precisava fazer isso. Fã de rock não é membro de torcida organizada, não precisa radicalizar. Música deveria ser arte, mesmo quando nos inspira rebeldia e reflexão. Mas é isso que acontece quando uma banda assume um discurso radical, que promete e não entrega, que incita a divisão entre jovens que estão lá apenas para se divertir e curtir um bom show. Não precisava queimar a camisa do Manowar. É bom guardá-la para lembrar quem são os ídolos da adolescência que vale a gente manter. Mesmo quando deixa a adolescência.

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