Mais uma noite de Natal

Estadão

21 de dezembro de 2008 | 09h50

Véspera de Natal. Toca a campainha. O tio entra com um saco de presentes e a tia carrega uma bandeja embrulhada com papel alumínio – dentro dela há um tender. Os dois filhos deles, de nove e dez anos, entram correndo e derrubam a filha dos donos da casa, de sete anos, que brinca sozinha com o presépio.

A prima solteirona cumprimenta o casal e reclama de alguma coisa, mas ninguém ouve o quê. O irmão dela, também solteiro, elogia o vestido da tia e volta a comentar a novela com a dona da casa. Ninguém nunca disse nada, mas pelo jeito do primo todos sabem porque ele nunca se casou.

O dono da casa está na cozinha tentando abrir um maldito espumante, mas a rolha não quer sair de jeito nenhum. Ele perde a paciência e empurra a cortiça despedaçada para dentro da garrafa. Problema resolvido, ele grita o nome da mulher para que ela conte onde estão as taças de vinho empoeiradas há exatos 365 dias – desde o último Natal.

Em volta do presépio, as crianças perguntam por que Jesus não está lá; a dona da casa explica que ele ‘vai nascer’ à meia-noite. Eles aceitam a resposta e correm para a árvore de plástico verde cheia de luzinhas, onde os presentes descansam à espera da hora certa.

Quase meia-noite. Com honras de chefe de estado, o tender é levado para a mesa, onde se junta à maionese de atum e ao arroz com passas, uma receita da qual a prima solteirona se orgulha há anos e não dá para ninguém nem sob tortura.

Os olhos da menina de sete anos já estão quase fechados, ela só agüenta porque quer conhecer Papai Noel. Os outros dois garotos não acreditam mais nisso; a desilusão veio há dois anos, quando pegaram o pai vestindo a tradicional roupa vermelha no banheiro.

O jantar está uma delícia. O dono da casa abre o terceiro espumante. A prima solteirona conta mais uma vez a história do amor não-correspondido pelo colega de trabalho; o tio também lembra mais uma vez dos tempos em que jogava futebol. “Se eu tivesse me dedicado mais, esse Natal seria na Europa”, ele repete. Exatamente como no ano passado.

À meia-noite, todos se cumprimentam. Os dois garotos saltam em cima dos presentes, mas a menina de sete anos não resistiu e dormiu no sofá.

O ano que vem será igualzinho, com uma ou outra pequena mudança. A vida seguirá sem segredos, sem surpresas, como uma noite de Natal. Feliz Natal para todas as famílias do mundo: que sejamos sempre iguais, sempre diferentes. E sempre em frente, com muito amor.

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